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Desunião da oposição facilita caminho de Maduro em eleições

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CARACAS — No mesmo dia em que a coalizão opositora Mesa de Unidade Democrática (MUD) anunciou sua decisão de não participar das eleições presidenciais antecipadas para o dia 22 de abril, o presidente venezuelano, Nicolás Maduro, pediu à Assembleia Nacional Constituinte (ANC) que antecipe o pleito legislativo, realizando-o junto com o presidencial. O pedido — levantado na véspera como possibilidade pelo líder chavista Diosdado Cabello — foi classificado pelos críticos do governo como uma manobra para prejudicar ainda mais a oposição, impedida recentemente de apresentar uma candidatura única pela MUD. A coalizão convocou a criação de uma frente ampla nacional para exigir condições de transparência no pleito presidencial e sua realização no segundo semestre.

— Vamos às eleições de qualquer jeito. Com a MUD ou sem a MUD — disse Maduro a repórteres, pouco após a divulgação da decisão da coalizão opositora, que classificou as eleições convocadas como “um simulacro fraudulento e ilegítimo”.

A decisão da MUD de evitar participar do pleito deixa o caminho aberto para a reeleição de Maduro, cujo governo conta com a reprovação de 75% dos venezuelanos segundo pesquisas. No momento apenas dois nomes surgem como possíveis adversários eleitorais para o presidente: o independente Claudio Fermín, que não integra a MUD, e o pastor evangélico Javier Bertucci, conhecido por seu envolvimento no escândalo conhecido como “Panama Papers” e por ter sido detido por contrabando em 2010.

— Maduro talvez viva seu momento mais frágil, mas sua força está na fraqueza, nos erros, na falta de união e de coerência da oposição — afirmou à AFP Félix Seijas, diretor do instituto de pesquisa Delphos. — Isso é o que lhe dá oxigênio.

No comunicado, a coalizão opositora afirma que a decisão de rechaçar as eleições é decorrente da falta de “condições e garantias democráticas”, e desafia o presidente a “aceitar as condições eleitorais contidas no documento elaborado e aprovado por unanimidade pelos ministros dos Negócios Estrangeiros da Bolívia, Nicarágua, São Vicente (escolhido pelo próprio governo venezuelano), México e Chile, em 2 de dezembro na República Dominicana”.

De acordo com o documento, as condições estipuladas envolvem a realização do pleito no segundo semestre de 2018, a formação de um Conselho Nacional Eleitoral equilibrado, o convite a missões de observação internacionais em todas as fases do processo eleitoral, garantias ao voto dos venezuelanos no exterior, acesso igualitário aos meios de comunicação públicos e privados, a revogação de inabilitações políticas aplicadas a partidos e líderes opositores, e a realização de auditorias técnicas que deem transparência e confiabilidade ao processo eleitoral.

“Chegamos a um consenso e iniciamos a partir de hoje (ontem) uma campanha para que eleições verdadeiras sejam realizadas este ano”, diz o documento divulgado pela coalizão opositora. “Esse evento prematuro e sem condições anunciado para o dia 22 de abril é apenas um show do próprio governo para aparentar uma legitimidade que não tem. Essas não são eleições. Nosso objetivo é conseguir eleições de verdade.”

O adiantamento das eleições presidenciais já foi rechaçado por 14 países do continente reunidos no Grupo de Lima — entre eles o Brasil — ressaltando a falta de garantias de eleições livres. Apesar da decisão conjunta da coalizão — que reúne 18 legendas — de não participar da votação de abril, um dos principais líderes opositores do país, o ex-chavista Henri Falcón, indicou que poderia sair candidato de maneira independente, e seu partido, Avanço Progressista, procurou o apoio de outras legendas numa tentativa de impulsionar uma possível candidatura.

Longe das cédulas eleitorais, a MUD aposta na criação de uma frente ampla para forçar o governo a realizar eleições em condições de transparência. O agrupamento contaria não apenas com partidos opositores, mas também com diferentes setores da sociedade, como a Igreja Católica e universidades.

— Temos linhas de ação concretas para criar uma frente ampla nacional para o resgate da democracia — afirmou o coordenador político da MUD, Ángel Oropeza. — Venderam a ideia de que a MUD não tem projeto. Nada está mais distante da realidade.

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