Havana “Hoje não é dia de água”, afirmou Florisbela Gutiérrez, de 59 anos, moradora de San Miguel del Padrón, uma das regiões mais carentes da Grande Havana, a apenas 11 quilômetros do centro da capital cubana.
— Água aqui é só dia sim, dia não.
Mas as ruas do local tinham diversas poças. Era esgoto. Cena comum nas periferias da América Latina, mas que até pouco tempo era rara em Havana:
— Antes, o governo arrumava sempre que o esgoto estourava. Agora isso é o normal. Fico triste, meu neto brinca nesta rua.
Por outro lado, no elegante bairro de Miramar — residência de embaixadores e da cúpula do Partido Comunista Cubano —, não há poças nas ruas e a água está sempre nas torneiras. Local com muitos restaurantes, serviços e belas casas, o bairro concentra a elite cubana. A desigualdade, crescente na ilha, é um dos desafios do governo de Miguel Díaz-Canel, que assumiu na quinta-feira, encerrando a era Castro ao substituir o ditador Raúl, que seguirá à frente do PCC.
Além da elite política, o país conta, cada vez mais, com um grupo de “abastados”: as pessoas que têm acesso à moeda estrangeira, sejam remessas diretas do exterior ou proveniente do turismo. Isso, de certa maneira, sempre existiu em Cuba, mas agora a elite é maior e ostenta mais.
Parte da população se ressente de, ao mesmo tempo em que não conta com os bônus do capitalismo e da democracia (como a liberdade e as oportunidades da livre-iniciativa), sujeitar-se ao pior dos dois modelos, ou seja, da economia de mercado e do regime de partido único.
— Nunca vi tantos mendigos em Havana. Agora eles estão em todos os lugares. Dá uma dó. A gente sabe que o Estado tinha que prover a todos, mas cada vez mais há pessoas esquecidas. Quando eu era jovem, há 20 anos, nunca tinha visto um mendigo. É assim no seu país também? — indagou uma professora na região da Praça da Revolução. — Mas, por favor, não publica meu nome. Pois a repressão ainda continua.
A desigualdade afeta mais os pobres, afirma Guillermo “El Coco” Fariñas, dissidente e opositor da ditadura cubana:
— Quando há mais pessoas com recursos, como militares, a burocracia do partido e do governo e os contrapropistas , aqueles que não têm acesso ao CUC sofrem mais, pois há uma inflação puxada pelos abastados. Além disso, os serviços públicos estão piorando para os mais pobres.

