BUENOS AIRES - Desde que deixou o poder, em dezembro de 2015, a ex-presidente da Argentina Cristina Kirchner foi notícia, basicamente, por denúncias judiciais sobre suposta lavagem de dinheiro, enriquecimento ilícito, irregularidades em suas declarações patrimoniais, congelamento de seus bens e contas bancárias, entre outras complicações judiciais. O cerco da Justiça sobre ela se fecha cada vez mais. No entanto, com o país já em clima de campanha para as eleições legislativas de outubro, foram divulgadas pesquisas que mostram que a ex-chefe de Estado preserva uma importante base de apoio na província de Buenos Aires, principal distrito eleitoral da Argentina, e poderia, até mesmo, ser a candidata mais votada. Cristina ainda não anunciou uma eventual candidatura, mas as especulações sobre sua decisão de disputar uma vaga no Senado são cada vez mais intensas.
No próximo dia 7 de março, quando o governo de Mauricio Macri enfrentará um grande protesto sindical convocado para exigir, entre outras demandas, melhorias salariais, a ex-presidente deverá comparecer novamente aos tribunais de Buenos Aires para dar explicações num caso sobre suposta lavagem de dinheiro.
Numa atitude de candidata, Cristina pediu a seus seguidores que não a acompanhem ao Tribunal de Comodoro Py e participem das marchas organizadas pela Central de Trabalhadores Argentinos (CTA) e a Central Geral de Trabalhadores (CGT).
“As pessoas estão muito mal. Não conseguem chegar ao fim do mês. Continuam demitindo operários e fechando fábricas. As contas de luz, água e gás estão se tornando impagáveis para muitos compatriotas. Garagens, pedágios, condomínios, escolas, planos de saúde, preços impossíveis nos supermercados estão castigando o bolso dos argentinos”, escreveu a ex-presidente em uma sequência de mensagens em sua conta no Twitter.
De acordo com uma pesquisa realizada pela empresa de consultoria Hugo Haime, se as eleições legislativas fossem hoje, Cristina teria entre 30% e 34% das intenções de voto na principal província argentina. Num dos cenários traçados pela Haime, no qual o peronismo se dividiria entre a candidatura da ex-presidente e do deputado e ex-candidato presidencial Sergio Massa, a ex-chefe de Estado ficaria em primeiro lugar. Se surgisse uma terceira chapa peronista (de candidatos ex-kirchneristas) em Buenos Aires, Cristina ficaria em segundo lugar, atrás de Massa. Em todos os cenários, o macrismo perde para o peronismo (kirchnerista ou não).
— Ninguém pode negar que Cristina tem chances de ganhar. Hoje ela está com uma popularidade consolidada, apesar dos escândalos de corrupção — disse o analista político Carlos Fara.
Para ele, o que poderia prejudicar Cristina seria “uma polarização muito marcada” da sociedade, entre os que querem defender o governo Macri e os que querem voltar ao kirchnerismo.
— Isso ficará mais claro mais pra frente. O que sim podemos dizer é que os problemas judiciais não afetaram a base dura de apoio à ex-presidente, que também é seu teto — explicou Fara.
Uma eventual derrota na província de Buenos Aires seria muito complicada para Macri, às voltas com pressões dos sindicatos e um clima de insatisfação social cada vez maior. A Casa Rosada ainda não anunciou o nome de seus candidatos ao Congresso, e a grande questão é saber quem poderia enfrentar e derrotar o peronismo (kirchnerista e não kirchnerista). Um dos nomes cogitados pelo presidente é o da deputada Elisa Carrió, sua fiel aliada.
— A Argentina está avançando, e a maioria dos argentinos vai valorizar isso e vai nos apoiar em outubro, para confirmar esse rumo — declarou Macri, tentando transmitir confiança de que “a mudança de governo está consolidada”. — É para sempre e não para voltar atrás.
Mas o governo está preocupado e ciente da crescente irritação social. A inflação continua alta (no ano passado, chegou a quase 40%, e a meta para 2017 é de 17%), e Macri tem sido questionado por alguns erros assumidos publicamente — como uma negociação com uma empresa que pertenceu a seu pai (o Correio Argentino) e que mantém uma dívida com o Estado. O presidente foi denunciado por favorecimento ao grupo empresarial de sua família e foi obrigado a anular o acordo e iniciar novas conversas. Segundo a imprensa local, em seu discurso anual de abertura das sessões legislativas, amanhã (1º de março), Macri anunciará fortes medidas de combate à corrupção e reforçará sua defesa da transparência.

