RIO e HAVANA — Um lado afirma que o presidente da Nicarágua, Daniel Ortega, faz um governo personalista e autoritário, e deve ser responsabilizado pela violência política que em três meses provocou pelo menos 295 mortes no país. O outro defende que a revolta contra Ortega é parte de uma ofensiva hemisférica de uma direita golpista. Os acontecimentos na Nicarágua dividiram a esquerda latino-americana, com repercussões fora da região.
Nesta quinta-feira, o ex-ditador cubano Raúl Castro, ainda secretário-geral do Partido Comunista, entrou no debate ao afirmar que os Estados Unidos estão “fechando o cerco” a Cuba, Venezuela e Nicarágua. Ele manifestou “invariável solidariedade” aos dois aliados — antes da atual debacle venezuelana, Havana e Manágua tinham relações econômicas privilegiadas com os governos chavistas em Caracas, recebendo subsídios na forma de petróleo barato.
O pronunciamento de Raúl ecoa a resolução aprovada em meados deste mês em Havana pelo Foro de São Paulo, que reúne partidos de esquerda latino-americanos. O documento chama os que pedem a saída de Ortega de golpistas e terroristas, e afirma que os EUA, “por meio de suas agências na Nicarágua”, dirigem a “ultradireita local” para repetir “a conhecida fórmula do mal chamado ‘golpe brando’”.
A resolução foi endossada, entre outros, pelo PT brasileiro e o Movimento ao Socialismo do presidente boliviano, Evo Morales — que chegou ao poder em 2005, eleito no rastro de uma revolta popular que, reprimida, derrubou em 2003 o governo de Gonzalo Sánchez de Lozada. Houve, no entanto, dissidências, entre elas as da Frente Ampla da Costa Rica e da Frente Ampla do Uruguai, partido do atual presidente, Tabaré Vázquez, e do ex-José Mujica. Na Espanha, o Podemos, que tem relações históricas com os bolivarianos latino-americanos, pediu ainda em maio a punição das “autoridades policiais e políticas responsáveis pelas violações dos direitos humanos cometidas” na Nicarágua.
Na semana passada, quando o Senado uruguaio aprovou uma moção pelo “fim imediato da violência contra o povo nicaraguense”, Mujica, de 83 anos e hoje senador, disse:
— Sinto-me mal, porque conheço gente tão velha quanto eu, porque me lembro de nomes e companheiros que perderam a vida na Nicarágua, lutando por um sonho. E sinto que algo que foi um sonho cai na autocracia. Os que ontem foram revolucionários perderam o sentido na vida. Há momentos em que é preciso dizer “vou embora”.
Os acontecimentos na Nicarágua são simbólicos para a esquerda. Em 1979, Ortega era um dos nove comandantes da Frente Sandinista de Libertação Nacional (FSLN), que derrubou o ditador Anastasio Somoza, de uma dinastia que dominou o país por 43 anos. A Revolução Sandinista se pretendia socialista e democrática: em 1986, Ortega foi eleito presidente enquanto enfrentava uma guerra contrarrevolucionária financiada pelos Estados Unidos.
Derrotado nas eleições de 1990, ele voltou ao poder em 2007 em aliança com forças que antes o combatiam, incluindo a cúpula da Igreja Católica e grandes empresários. Dizia governar em uma “aliança tripartite” entre Executivo, empresas e sindicatos. Reeleito em 2011, aprovou no Legislativo a reeleição ilimitada e foi novamente eleito em 2016.
Os protestos atuais começaram em abril contra uma reforma da Previdência, depois revogada. A repressão oficial, que inclui centenas de presos, engrossou a revolta. Uma proposta de antecipação das eleições foi rejeitada pelo governo.
A divisão da esquerda regional segue um movimento que acontece na Nicarágua há muito mais tempo. Nos anos 1990, quando Ortega assumiu o controle da FSLN com a mulher, Rosario Murillo, atualmente sua vice, dissidentes criaram o Movimento de Renovação Sandinista, que teve seu registro cassado em 2008. O escritor Sergio Ramírez, que foi vice-presidente de Ortega nos anos 1980, a escritora Gioconda Belli e Dora María Tellez, comandante sandinista em 1979, estão entre eles.
“A função ética da esquerda sempre foi estar ao lado dos mais pobres e humildes, com sentimento e responsabilidade como faz Mujica. Por outro lado, o coro burocrático acaba justificando crimes em nome de uma ideologia férrea que não aceita as mudanças da história”, escreveu Ramírez no jornal “El País”.
A divisão se estende a intelectuais influentes na esquerda. O teólogo brasileiro Leonardo Boff pediu que “as forças repressivas parem de matar, especialmente os jovens”. No jornal argentino “Página 12”, o argentino Atilio Borón e o português Boaventura de Sousa Santos se confrontaram em artigos.
Borón acusou vozes da esquerda de se juntarem ao “falatório do império” e enquadrou a revolta na Nicarágua em uma sequência que inclui o golpe em Honduras em 2009, o impeachment de Fernando Lugo no Paraguai em 2012 e o impeachment de Dilma Rousseff em 2015. “Alguém pode supor que a destituição de Ortega instauraria na Nicarágua uma democracia escandinava?”
Boaventura afirmou que a revolta foi causada pelos erros de Ortega, entre eles adotar um modelo “neoliberal”, apoderar-se do Estado, acumular riqueza pessoal, instrumentalizar o Judiciário e criar forças repressivas paramilitares. “Por quanto tempo a memória das conquistas revolucionárias obscurece a capacidade de denunciar essas perversões ao ponto de que a denúncia chega sempre tarde?”

