CARACAS- Na década de 1980, ela estrelou uma das novelas mais famosas da Venezuela, “A dona”, exportada para muitos países e considerada símbolo dos anos de ouro da TV nacional. Há dois anos, profundamente comprometida com a luta da oposição venezuelana, a atriz Amanda Gutiérrez retornou ao teatro com a peça “Venezuelanos desesperados”, na qual, junto com outros artistas, denuncia os aspectos mais dramáticos da crise: a fome, o exílio, a insegurança e a perseguição a todo aquele que pensa diferente. Apesar de o país praticamente ter perdido sua vida cultural, a peça faz sucesso, segundo Amanda, “porque as pessoas se sentem identificadas”.
Não é fácil ser artista nem jornalista na Venezuela. Qualquer expressão crítica em relação à autoproclamada revolução bolivariana é considerada traição à pátria e pode levar até mesmo à prisão. Entre artistas e jornalistas, a palavra “ditadura” circula diariamente e o medo já faz parte da vida de todos. Mas muitos, como Amanda, não se calam, participam das marchas convocadas pela oposição e, mesmo recebendo ameaças permanentemente, denunciam o autoritarismo ao qual estão submetidos os cerca de 31 milhões de venezuelanos.
O próprio exercício da profissão está em risco. Uma das regras básicas para quem mora em Caracas, por exemplo, é não circular na rua depois das 18h ou, no máximo, 19h. A capital venezuelana é uma das mais violentas da América Latina. Como fazer, então, para ir ao cinema, ou ao teatro? Isso sem contar as limitações econômicas. O ingresso para a peça de Amanda custa em torno de sete mil bolívares, num país no qual o salário mínimo é de 41 mil bolívares.
— Tenho muitos amigos artistas trabalhando em qualquer coisa. Eu mesma, há alguns anos, vendi comida para sobreviver, não tive outra alternativa — contou Amanda.
Amanda não titubeia em referir-se ao governo do presidente Nicolás Maduro como “uma ditadura”, apesar de insultos e ameaças que recebe nas redes sociais. Outra mulher combativa é a pianista venezuelana Gabriela Montero, famosíssima dentro e fora do país. Gabriela não pisa em Caracas há sete anos, teme ser perseguida ou presa.
— Acho que minha voz é mais valiosa no exterior. Aproveito cada concerto que faço para denunciar a ditadura venezuelana — afirmou Gabriela, por telefone, de Barcelona.
Segundo ela, com exceção dos músicos do Sistema de Orquestras estatal, os artistas do país estão vivendo em condições precárias.
— A Venezuela está asfixiada, e a cultura é parte do país. Não temos mais vida cultural, é muito triste — lamentou a pianista.
A mídia vive panorama similar. Os espaços para quem questiona o governo se reduziram drasticamente, alguns jornais deixaram de circular por falta de papel e o trabalho do jornalista passou a implicar riscos cada vez maiores. Hoje haverá uma nova manifestação em Caracas e, como de costume, quem quiser se informar-sobre o protesto deverá recorrer às redes sociais, principalmente o Twitter. Se não fossem essas redes, a Venezuela estaria, literalmente, fora do ar. Não existem canais de TV que divulguem imagens das marchas realizadas pela oposição e muito menos da repressão exercida pela Guarda Nacional Bolivariana (GNB) e pela Polícia Nacional Bolivariana (PNB). O chavismo eliminou quase todas as vozes críticas, comprou meios e conseguiu impor uma censura prévia assustadora.
GOVERNO CENSURA E PRENDE JORNALISTAS
Sábado passado, dia em que foi realizada a última manifestação de oposição, o governo bloqueou a transmissão dos canais de TV digitais Vivo Play, Capitolio TV e Vontade Popular Internacional (VPI) TV, os únicos que estavam mostram a violenta repressão que estão sofrendo militantes da Mesa de Unidade Democrática (MUD) nas ruas de Caracas. São canais que utilizam Twitter, Facebook ou alguma plataforma digital para operar. Mas agora, nem eles estão conseguindo driblar o cerco imposto pelo governo de Maduro, que cada vez esconde menos seu perfil ditatorial.
Semana passada, o cinegrafista do VPI Elvis Flores foi detido enquanto filmava uma marcha da oposição. Imediatamente, o hashtag #liberemaelvis começou a circular no Twitter e deputados da MUD iniciaram uma campanha nas redes. “Exigimos que a ditadura libere Elvis Flores, o cinegrafista de VPI. Solidários com a imprensa e com a verdade”, escreveu o congressista da MUD Juan Miguel Matheus. Mas Elvis continua preso, assim como Braulio Jatar, detido em 3 de setembro do ano passado. Ele tinha um site de notícias na Ilha Margarita, o Reporte Confidencial, e foi preso após divulgar imagens de um panelaço contra o presidente.
O trabalho dos jornalistas está cada vez mais limitado. Correspondentes e enviados estrangeiros são deportados apenas por filmar a fila de um supermercado, uma das coisas mais comuns no país. O mais incrível desta situação é que os meios venezuelanos não fazem reportagens, nem informam sobre os dramas cotidianos do país. Com exceção de jornais como “El Nacional” e “Tal Cual” e dos canais digitais — quando não estão bloqueados —, o silêncio é absoluto.
Sábado, enquanto milhares de pessoas estavam sendo reprimidas violentamente nas ruas de Caracas, a grande mídia venezuelana transmitia programas frios, gravados. Quem quer se informar passa horas navegando nas redes sociais. Se não existisse internet na Venezuela, algo que o governo Maduro ainda não eliminou mas restringe cada vez que pode, a escuridão seria total.

