Uma cesariana feita numa menina estuprada na província de Tucumán, no norte da Argentina, na quarta-feira (27) reacendeu o debate sobre o aborto na Argentina, após a família e organizações sociais considerarem a demora na interrupção da gravidez como "tortura".
A menor de 11 anos, cuja identidade foi deixada em sigilo, foi estuprada pelo parceiro de sua avó. "Quero que me tirem o que o velho colocou dentro de mim", afirmou, de acordo com o registro judicial do caso.
Na Argentina, de acordo com lei vigente desde 1921, o aborto é permitido em dois casos: quando a vida da mulher está em perigo e quando a gravidez é resultado de estupro, sem definir as semanas de gestação.
Embora a gravidez tenha sido detectada em 21 de janeiro, quando a menina foi para o centro médico reclamando de dores de estômago, a autorização do aborto foi sendo adiada e a menor só foi internada para a intervenção um mês depois.
"O direito à saúde não foi respeitado. Foram colocados obstáculos, barreiras. A prática legal foi atrasada e permitiu que a gestação avançasse, terminando como terminou", reclama a advogada Soledad Deza, de um grupo de "católicos pelo direito de decidir".
A advogada da família, Cecilia de Bono, lembrou que a menina e sua mãe pediram a interrupção da gravidez. "A vontade da menina tinha que ser levada em conta". No entanto, segundo os médicos, era tarde demais para interromper a gravidez.
"A verdade é que não se podia esperar por uma via vaginal", disse a ginecologista Cecilia Ousset, que esteve presente durante o procedimento. "Seu corpo não estava desenvolvido para uma gravidez de 23 semanas, e mesmo se estivesse, ela não estava em condições psicológicas por causa dos muitos abusos que sofreu", explicou a especialista, cujo marido fez a intervenção.
A menina passou por uma "microcesariana" e o bebê de cinco meses foi para a área de neonatologia. As chances de sobrevivência do bebê prematuro são "extremamente difíceis", segundo o médico Carlos Schwartz.

