WASHINGTON e NOVA YORK — Contrariando o que muitos imaginavam com a eleição de Donald Trump — fã confesso de Vladimir Putin — a relação entre os Estados Unidos e a Rússia piora a cada dia. Os dois países entraram em uma espiral de acusações, sanções e ataques que não tem previsão de melhorar a curto prazo. A situação gera temores na comunidade de 2,9 milhões de russos que vivem nos EUA, segundo maior grupo de estrangeiros no país, atrás apenas dos mexicanos, de acordo com o Pew Research Center. Mas afinal, existe uma “russofobia”, como sugere Putin?
O presidente russo tem denunciado uma perseguição ao país e discriminação a seu povo em solo americano. As sanções de Washington — como a determinação para o fechamento do consulado russo em São Francisco, no último dia de agosto — seriam exemplos disso. Americanos, por outro lado, argumentam que o país espionou e divulgou dados sigilosos para interferir nas eleições de 2016, beneficiando Trump, que está sendo investigado se atuou em conluio com os russos. E, à medida que as investigações avançam, a tendência é que piore a relação entre os dois países, que também têm fortes divergência sobre a atuação na Síria, sem contar a objeção pelo fato de os russos terem anexado a Crimeia, da Ucrânia.
A maior comunidade de origem russa fora da antiga União Soviética no mundo ocidental está em Nova York, concentrada nos bairros de Brighton Beach e Sheepshead Bay, no limite sul do Brooklyn, à beira do Atlântico. Mas os cerca de 600 mil habitantes da cidade que têm no russo sua primeira língua não formam um bloco homogêneo. São divididos por religião (cerca de 25% são judeus), etnia (o conglomerado de edifícios à beira-mar, não por acaso apelidado de Pequena Odessa, recebeu também extensa migração ucraniana e bielorrussa) e, definitivamente, posicionamento político. Todos se unem, no entanto, no receio de que o acirramento dos movimentos anti-Trump e as revelações da suposta intervenção russa na disputa eleitoral do ano passado possam resvalar de forma negativa em sua rotina.
— Estamos com medo de que, por causa de toda a agitação social, acabe sobrando para nós — diz, em um banco à beira-mar, Radek V., que não quer dar o sobrenome nem revelar a idade, mas diz estar há 36 anos nos EUA e é um fã tanto de Trump quanto de Putin.
Radek dá de ombros em relação aos hackers que prejudicaram a candidata democrata, Hillary Clinton:
— Não acho isso tão importante assim. Há muito mais democracia hoje na Rússia do que na época comunista, quando eu vim para cá. Isso sim, afetou minha vida.
Muitos deste período não fazem questão de se relacionar com os compatriotas de levas migratórias mais recentes, concentrados nos bairros boêmios do Sul de Manhattan e do Norte do Brooklyn. É o caso da instrutora de ioga Xenia Grubstein, 36 anos, há sete em Nova York:
— Não acho que o imbróglio Trump-Putin piorou, até o momento, a maneira como russos são vistos pelos americanos. Não voltamos aos tempos da Guerra Fria, mas eu vivo na ponte-aérea Nova York-Los Angeles, um mundo bem diferente do da América Profunda — raciocina, para concluir: — Ainda assim, pessoas aparentemente cultas me perguntam amiúde, sérias, se entrei no país como noiva de encomenda para escapar da dureza na vida na Rússia.
Com um ateliê no bairro de Bedford-Stuyvesant, no Brooklyn, o fotógrafo russo Alexander Kargaltsev, 32, também chegou aos EUA em 2010, mas como asilado político. Artista multimídia premiado, ele é gay assumido e percebeu que corria risco de vida se permanecesse em seu país. Com o apoio da família, aproveitou uma viagem de trabalho aos EUA para pedir asilo. E transformou seu trabalho em arma de propaganda contra a agressão aos direitos humanos da comunidade LGBT na Rússia. Seu celebrado livro “Asylum”, de 2012, tem como modelos jovens homossexuais russos forçados a deixar o país devido à perseguição de Moscou.
— Não vejo a possibilidade de nova-iorquinos se tornarem refratários aos russos que aqui estão, especialmente os da nova leva de imigrantes, já que nós pensamos como eles, de forma crítica, em relação a Moscou — afirma o artista. — Não me surpreendeu em nada o escândalo dos hackers. A mentalidade de quem está no poder na Rússia é de que pode fazer o que quiser e jamais será pego, julgado, condenado. A denúncia, especialmente pela comunidade russa expatriada, dos horrores do regime, é cada vez mais necessária.
Sasha, como é conhecido, participa de uma rede de imigrantes russos nos EUA que ajuda jovens LGBT em risco de vida, especialmente na Chechênia.
O artista abre em outubro “Disassembled”, individual na Galeria Friedman, cuja noite de abertura, no dia 22, promete se tornar um ato político anti-Putin. Juntamente com 50 imagens registradas em polaroide de nus masculinos e femininos, retrabalhados em laboratório com técnica criada pelo próprio Kargaltsev, a mostra consta de um site original destacando a possibilidade de Putin vencer as eleições presidenciais de 2018 de acordo com os bookmakers londrinos.
— Falar em russofobia nos EUA nos leva ao campo do medo, do que pode vir a acontecer. A russofobia ocorre na própria Rússia, e dirigida a parcela importante, culta, bela e jovem de sua própria população. Enquanto gays continuarem sendo atacados nas ruas e seus agressores seguirem impunes, é lá que o foco de qualquer ação policial denunciando violência e comportamento prejudicial contra cidadãos russos deve estar.
Na capital americana, onde há uma população importante de russos, a regra geral é dizer que nada mudou, mas quase ninguém aceita dar nome completo para a reportagem. E, sob sigilo, confirmam que a tendência é que a discriminação cresça e que voltem os preconceitos que o grupo vivia na época da União Soviética.
— O pior que pode acontecer conosco é uma desconfiança generalizada. Se isso ocorrer, teríamos que ficar mais restritos à nossa comunidade — afirmou uma florista que pediu para não dar seu nome.
Outros acreditam que moradores de Washington, cosmopolitas, não se importarão com a piora entre os dois governos:
— A russofobia só surgirá se as pessoas pensarem que todos os russos pensam como Putin. Isso é tão absurdo como imaginar que todos os americanos pensam como Trump — disse Cristina, que trabalha em um restaurante de Washington. — Mas acredito que a Copa do Mundo de 2018 pode ajudar a melhorar a imagem do país.
Especialistas confirmam esta situação:
— É claro que, se a relação entre os dois países continuar a piorar, podem começar a surgir mais constrangimentos para os russos nos EUA — afirmou Keith Darden, especialista em Rússia e professor de Relações Internacionais da American University, em Washington. — Mas temos que lembrar: atualmente, quem mais teme os russos são as pessoas de esquerda, pelo histórico de espionagem e falta de apreço à democracia. O eleitor de Trump tende a ser mais receptivo aos russos, pelo fato de serem brancos.

