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China exibe ascensão ‘pacífica, mas não passiva’

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Pequim — “Seja discreto e espere o tempo certo.” Essas seriam, em tradução livre, as palavras usadas pelo líder chinês Deng Xiaoping para comandar o país mais populoso do mundo e deslanchar seu projeto de reformas econômicas nos anos 1980. Na política externa, a China também era discreta. De lá para cá, tornou-se a segunda maior economia do planeta — até 1991 era menor do que a brasileira.

Hoje, o líder Xi Jinping garante que “chegou a hora de tomar o centro do palco mundial e contribuir mais para a Humanidade.” Nada que se pareça com a estratégia de fugir dos holofotes para preservar a China das críticas de fora enquanto não estivesse preparada para respondê-las.

A regra tem sido rebater qualquer reação negativa à ascensão chinesa. Nos últimos dias, Pequim respondeu a todas as alfinetadas americanas, cada vez mais frequentes desde a eleição de Donald Trump. Na revisão de sua política nuclear, os EUA classificaram China e Rússia como “potências revisionistas”, e usaram esse argumento para anunciar a renovação do seu arsenal. Os chineses atribuíram a acusação a “uma mentalidade ultrapassada do tempo da Guerra Fria”.

Pouco antes, Pequim havia respondido a declarações do secretário de Estado americano, Rex Tillerson, que alertou os países da América Latina para o “imperialismo chinês”.

— A alegação dos EUA é contrária aos fatos e mostra desrespeito à maioria dos países latino-americanos — disse a porta-voz da Chancelaria Hua Chunying, usando números da Organização Internacional do Trabalho para mostrar que empresas chinesas criaram 1,8 milhão de empregos na região.

Outro porta-voz, Geng Shuang, chamou de “sem fundamento e altamente irresponsáveis” as declarações do Tesouro americano de que a China estava apoiando o governo do venezuelano Nicolás Maduro com empréstimos vultosos em troca de petróleo. Geng disse que a cooperação com a Venezuela é conduzida por instituições financeiras e empresas “segundo as regras de mercado”. O país é hoje um dos maiores credores venezuelanos.

Uma China mais confiante quer o reconhecimento do seu novo status. O movimento é visto com desconfiança por outras nações do mundo, que se perguntam sobre as verdadeiras intenções por trás de conceitos que parecem estender os tentáculos chineses muito além das fronteiras do Império do Meio.

O ambicioso projeto de centenas de bilhões de dólares de investimentos em infraestrutura “Um cinturão, uma rota”, conceito incluído na constituição do Partido Comunista em 2017, tem por objetivo promover investimentos e programas de desenvolvimento chineses mundo afora. É uma versão turbinada da antiga Rota da Seda, agora cobrindo uma área que vai da Ásia à Europa, passando pelo Ártico e até mesmo o espaço.

Como disse ao GLOBO um diplomata experiente que acompanha o país há anos, antes os chineses procuravam não chamar atenção para o fato de que se tornaram um país poderoso. Agora já não há como esconder o panda obeso atrás do pequeno arbusto. Segundo ele, “os chineses tentam passar a mensagem de que ainda são uma potência pacífica, mas não passiva”.

Os EUA ainda não saberiam bem como lidar com o “fato irreversível” da ascensão chinesa, e o mesmo acontece com outros países. É crescente a estratégia de contenção contra a qual a China tenta defender-se. Mas a avaliação do diplomata é que, embora mais assertivos, os chineses não se exaltam nem dão o troco na mesma moeda. Os recados costumam ser dados pelos jornais estatais em língua estrangeira, como o “China Daily”. Neles, a atuação externa de Xi ganha destaque. Nas entrevistas coletivas realizadas no salão do Centro de Imprensa Internacional do Ministério das Relações Exteriores, os porta-vozes não deixam nada sem resposta, a não ser que queiram. As coletivas passaram a ser diárias em setembro de 2011. Antes disso, aconteciam duas vezes por semana.

Para o diretor de Pesquisa do centro de estudos China Policy, David Kelly, não se pode analisar a política externa chinesa de maneira binária. Segundo ele, há um conjunto de narrativas, as “Sete Chinas”, que influenciam o posicionamento do país no cenário global. A crise financeira de 2008 deu novo fôlego à narrativa que ele chamou de “sobrevivente soberano”.

— O colapso do bloco comunista foi seguido de uma crise inesperada nas economias capitalistas liberais. Mais do que um modelo sobrevivente, o “modelo chinês” seria capaz de se mostrar mais eficiente e socorrer a ordem mundial neoliberal — pontuou Kelly.

Outro diplomata baseado em Pequim acredita que é cedo para dizer que a China do futuro será expansionista, embora o país veja uma oportunidade no vácuo de poder deixado pelos EUA em temas como mudança climática e globalização, e queira ter a palavra nas principais questões da geopolítica. Ele lembra que, diferentemente do Japão, a China não tem histórico de expansionismo na região.

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