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China envia para Hong Kong general que comandou repressão em Xinjiang

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A China anunciou neste domingo (9) uma mudança no comando da presença militar do país em Hong Kong. O general Peng Jingtang, que chefiou a força especial antiterrorismo em Xinjiang, província onde o regime liderado por Xi Jinping é acusado de promover uma campanha de genocídio, foi o escolhido para o posto.

Jingtang assume o lugar até então ocupado por Chen Daoxiang, general que comandou a repressão do ELP (Exército de Libertação Popular) aos protestos pró-democracia que reuniram dezenas de milhares de honcongueses nas ruas em 2019.

A indicação foi lida por analistas locais como um demonstrativo contundente do papel militar que Pequim deseja imprimir no território semiautônomo. Além da defesa nacional, o regime almeja cada vez mais asfixiar levantes em defesa da democracia, classificados pelo Partido Comunista Chinês como incitações ao terrorismo.

O general Jingtang atuou como subchefe da Polícia Armada do Povo e também comandou a força no território de Xinjiang. Há três anos, o Reference News, braço da agência estatal de notícias Xinhua, informou que uma força antiterrorismo nomeada Comando Águia da Montanha havia sido criada na província, e Jingtang foi citado como o líder.

O anúncio vem ainda na esteira da Lei de Segurança Nacional, norma implementada por Pequim em Hong Kong em meados de 2020 e que, entre outras coisas, criminaliza atividades consideradas de subversão e terrorismo, além de incluir a criação de novas unidades de polícia.

O novo comandante disse que trabalharia para "assegurar a soberania nacional, a segurança e os interesses de desenvolvimento em Hong Kong" e posou para fotos com a chefe-executiva do território, Carrie Lam Cheng.

Ao jornal South China Morning Post uma fonte ligada ao regime Chinês, que não quis se identificar, disse que a nomeação de Jingtang é parte de uma reorganização de liderança para mitigar a instabilidade local com a proximidade do 20º Congresso do Partido Comunista, que deve alçar Xi a um terceiro mandato presidencial, depois que o país aboliu os limites para reeleição, em 2018.

Pesa ainda o anseio de Pequim para manter a ordem diante das eleições para a chefia do Executivo de Hong Kong, em março.

O primeiro pleito realizado no território após o avanço da repressão deu uma demonstração desfavorável para o regime comunista: a votação para o Conselho Legislativo, realizada em dezembro, teve uma das maiores taxas de abstenção desde que Hong Kong deixou de ser uma colônia britânica e foi devolvida aos chineses, em 1997.

Em Xinjiang, onde o general Jingtang atuou, a China é criticada internacionalmente por manter os uigures, minoria étnica muçulmana, em enormes centros de detenção. Em 2018, uma equipe da ONU recebeu denúncias de que ao menos 1 milhão de uigures e de outras minorias muçulmanas estavam detidas e disse ter provas factíveis disso. Outro estudo, divulgado em 2020, aponta a existência de ao menos 380 campos de detenção.

A violência na região foi listada pelo governo dos Estados Unidos como um dos fatores para o bloqueio diplomático nos Jogos Olímpicos de Inverno de Pequim, marcados para fevereiro. Austrália, Reino Unido e Canadá também se juntaram ao boicote.

Alguns especialistas, por sua vez, apontam que o histórico do general em Xinjiang não é necessariamente o que mais pesa na escolha de seu nome, uma vez que Pequim já estabeleceu um escritório de segurança nacional em Hong Kong para aconselhar o governo local na manutenção da ordem pública e que ao Exército de Libertação do Povo restaria um papel secundário.

De acordo com a Lei Básica, espécie de miniconstituição de Hong Kong, cabe à Pequim a defesa do território, enquanto o governo local é o responsável por manter a ordem pública. O documento diz que o Exército chinês não deve interferir nos assuntos locais, mas que a chefia administrativa pode pedir ajuda, se necessário.

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