VIENA - Após uma campanha tão fortemente focada no combate à imigração que gerou até mesmo acusações de plágio por parte do Partido da Liberdade da Áustria (FPÖ, na sigla em alemão), legenda de extrema-direita, o Partido do Povo Austríaco (ÖVP), de centro-direita, venceu as eleições parlamentares ontem. Com 31,4% dos votos, no entanto, precisará entrar em coalizão com outro partido para formar um governo. O mais provável é que as duas legendas entrem em acordo, o que tornará a jovem estrela conservadora, Sebastian Kurz, de 31 anos, o mais jovem chanceler da História do país e também da Europa atualmente.
De acordo com apurações quase finalizadas, o ÖVP aumentará sua bancada parlamentar em dez deputados, enquanto o Partido Social Democrata (SPÖ), conquistou 26,7%, mantendo conquistando 51 cadeiras. Os dois partidos governaram o país numa coalizão comandada pelo social-democrata Christian Kern. A retórica anti-imigração de Kurz levou parte da imprensa a especular que o ÖVP deve abandonar a parceria com os social-democratas, e formar um governo com o FPÖ, que deve conquistar 27,4% dos votos, e aumentar sua bancada em 15 cadeiras, superando em uma o SPÖ.
Formado por ex-nazistas na década de 1950, o FPÖ participou do governo austríaco em duas ocasiões: entre 1983 e 1986, e entre 2000 e 2006. Na última ocasião, a legenda era liderada pelo polêmico deputado Jörg Haider —frequentemente acusado de antissemitismo e criticado por declarações simpáticas ao passado nazista do país — e sua chegada ao governo gerou protestos dentro e fora da Áustria, além de sanções econômicas de Israel e de alguns membros da União Europeia. Desta vez, no entanto, poucos parecem acreditar que um convite ao FPÖ causaria tamanha comoção internacional.
— Se o ÖVP convidar o FPÖ para uma coalizão, haverá muita atenção da mídia estrangeira à Áustria — afirmou ao "New York Times" a jornalista Julia Ortner, comentarista política do diário "Vorarlberger Nachrichten". — No entanto, depois do que vimos no resto da Europa, especialmente na Hungria, e mesmo em lugares como os EUA, isso já deixou de ser um tabu. A direita populista já chegou ao poder aqui e em toda parte.
Novas cores e nova direção
Conhecido por seu cabelo, sempre penteado para trás, Kurz entrou para a política em 2009 e teve uma ascensão metórica nas fileiras do partido. Em 2013, foi nomeado ministro das Relações Exteriores (o mais jovem a ocupar tal cargo em todo o planeta) e negociou com as nações dos Bálcãs estratégias para conter o fluxo de imigrantes que chegavam à Europa Central. Fortaleceu internacionalmente seu nome ao levar para Viena as discussões do acordo sobre o programa nuclear iraniano, e passou a presidir a Comissão de Ministros do Conselho Europeu e a Organização para a Segurança e a Cooperação na Europa (OSCE).
Em maio deste ano, Kurz chegou à liderança de seu partido, e acompanhado por uma equipe de estrategistas, ele se apresentou como o "Novo ÖVP", criando uma campanha focada na renovação da imagem do partido, que abandonou sua cor tradicional, o preto. Além disso, passou a se apresentar como movimento de mudança impulsionado pela internet e as redes sociais.
— Ele sabe o que quer e é implacável — afirma Stefan Lehne, especialista da Carnegie Europe. — Kurz conseguiu reinventar um dos mais enfadonhos e tradicionais partidos da Europa. É algo brilhante.

