BARCELONA E RIO - Há duas semanas, o catalão Manuel Almarcha, de 48 anos, empacotou roupas e objetos, apertou tudo dentro do carro e saiu de Berga (a 100km de Barcelona) com destino a Málaga, seu novo lar.
— Foram muitos anos considerando ficar ou ir embora — conta. — Mas nos últimos meses, a loucura dos separatistas piorou muito. Chega um momento em que ou você sai do problema ou se mete nele e acaba aos golpes.
Apesar de triste por deixar a terra onde nasceu, Almarcha se diz aliviado por sair antes que o “caos se instaure” e que a bandeira espanhola seja vista como símbolo inimigo. A bem da verdade, levantar esta bandeira nas ruas da Catalunha hoje pressupõe um risco. É muito provável que independentistas apaixonados tomassem o gesto como um insulto. Com os ânimos à flor da pele, não seria de se espantar que o episódio terminasse em violência.
Preocupada com o impasse político que se agrava a passos largos desde a votação do referendo no último dia 1º, a parcela não independentista e majoritária da população da Catalunha, segundo pesquisa do Centro de Estudos de Opinião, começa a se manifestar pelo “não”.
— Antes, não sentia a necessidade de expressar que sou contra a separação da Espanha. Mas agora, que (Carles) Puigdemont (presidente regional da Catalunha) ameaça declarar a independência unilateralmente, não posso me calar. Sou catalão, mas também sou espanhol — diz o aposentado Pedro Beltran, 72, com voz embargada e a mão no peito.
Beltran faz parte dos 3,2 milhões de cidadãos catalães que não compareceram às urnas no domingo passado ou por discordar dos argumentos independentistas e, sobretudo, por não reconhecer o referendo como ferramenta legal no processo, ou devido à repressão policial. Das 5,4 milhões de pessoas com direito a voto, 2,2 milhões disseram “sim” à proposta independentista. Muitas delas, segundo Alícia Romero, porta-voz do Partido Socialista Catalão (PSC), votaram movidas pela emoção.
— Não se decide o futuro de um país com base em sentimentos, e sim com base na razão.
Ainda de acordo com ela, há três anos, apenas 20% da população apoiavam a independência. O salto a 42% estaria ligado à reprovação de Mariano Rajoy, presidente do governo espanhol desde 2011 e comumente chamado de “máquina de produzir separatistas”. Acusado de maltratar a cultura catalã e olhar com pouco cuidado as reivindicações da região, Rajoy viu a já baixa popularidade despencar após as fotos e vídeos que circularam no último domingo. Imagens que mostram a violência da polícia contra a população acirraram os ânimos e criaram uma espécie de racha na capital, Barcelona.
O publicitário de 31 anos Samuel Valiente é um dos que sentiram o “efeito Rajoy”.
— Desde que o Estado agrediu a população, eu me sinto julgado por amigos e família. Parece que somos obrigados a aderir à causa independentista. Eles me olham diferente, quase como se eu fosse um fascista, e aí tenho que explicar meu ponto de vista muito calmamente — conta.
Para evitar embates com amigos e familiares, algumas pessoas optam por manter as discussões políticas longe das conversas de bar. Miquel Rosas, 37, gerente de um restaurante em Barcelona, já não toca no assunto nos almoços de família. Ele estabeleceu limites de comunicação com o cunhado, ex-combatente de um grupo militar ultranacionalista, e um tio espanhol que vive em Barcelona há duas décadas, ambos a favor do “sí”. Atualmente, só aceita conversar sobre o tema com o amigo Pol, que apesar de “comprometido com a independência” leva a situação com um pouco de humor.
— Sempre combinamos meio em tom de piada, meio a sério, que se chegasse a uma guerra com perseguição aos independentistas, eu os esconderia em minha casa. E caso cheguem a perseguir os não independentistas, que ele nos esconderia.
Sara Pi, cantora de 30 anos, também tenta conservar as amizades em meio ao cenário hostil quando o tema é independentismo. Sua maior preocupação, no entanto, é a imagem dos catalães em outras partes da Espanha.
— Adoro Madri e a amabilidade dos madrilenhos. Me faz muito muito mal pensar que possam passar a nos odiar e que tudo isso nos distancie do resto da Espanha — desabafa.
Para dar voz aos que estão contra o independentismo, uma ampla manifestação ocorre hoje ao meio-dia (7h em Brasília), em Barcelona. Segundo Mariano Gomà, presidente do grupo Sociedade Civil Catalã (SCC), “a mobilização tem por objetivo que os catalães silenciados e silenciosos saiam às ruas levantando sua voz”. No sábado, no centro de Madri, manifestantes defendiam a união nacional e um diálogo entre Rajoy e Puigdemont. Em Barcelona, cinco mil pessoas de branco empunhavam cartazes com a palavra “Parlem” (“Conversemos”).
— Há uma fratura social. Puigdemont fez uma aposta com o referendo que rompeu a sociedade catalã, e o fez com uma pequena maioria no Parlamento e sem seguir a vontade da maioria. Não houve um debate articulado entre as forças políticas — protesta José Domingo, vice-presidente da SCC.
Outros defendem a permanência na Espanha, mas mantendo sua identidade cultural.
— Não vivemos a era do multiculturalismo e do cosmopolitismo? Aqui somos verdadeiramente bilíngues, ainda que escolas insistam cada vez mais em usar somente o catalão, tratando o castelhano como um idioma estrangeiro — opina Ferran Brunet i Cid, professor do Departamento de Economia aplicada da Universidade Autônoma de Barcelona.
Rajoy garantiu no sábado ao “El País” que fará de tudo para impedir a declaração de independência. Mesmo que tenha que suspender a autonomia catalã.
— Seria importante que este catalanismo constitucional e moderado voltasse — apelou.

