Ao entrar oficialmente para a família real britânica, Meghan Markle, atriz americana, ativista de origem negra e feminista, conseguirá de fato quebrar paradigmas? Para a escritora e roteirista Kenia Maria, defensora dos direitos das mulheres negras na ONU, suas escolhas para a cerimônia mostram que sim: “Este casamento é também um ato político”.
Meghan é uma mulher negra e o fato de ter um pai branco não a torna branca. Além do romantismo e todo encantamento que existe nesta cerimônia para preservar laços tradicionais, agora este cenário tem uma princesa negra, americana e divorciada. E isso me agrada muito. É importante o mundo entender que Maghan e sua mãe, Doria Ragland, também são protagonistas desse cenário. E este casamento é também um ato político. Então eu digo que é um avanço sim, mas sem deixar de acompanhar os próximos capítulos desse conto de fadas.
Não tenho dúvida que ela terá de seguir padrões e também obedecer regras. Estamos falando da monarquia britânica! Cabelo e unhas pintadas não podem ser obstáculos para uma luta muito maior e não estou preocupada, neste momento, com o que ela vai usar e virar tendência de moda, mas sim o que ela vai falar sobre as mulheres negras nos espaços de poder. Me interessa saber se se ela vai continuar se posicionando como feminista negra e se a menina que um dia criticou a publicidade americana ainda existe nela. Deixar de ser a Meghan opinativa e que luta pelos direitos das mulheres; isso sim seria um retrocesso.
O corpo dela naquele espaço fala por si só. É um corpo político! Isso não ficou impune e o mundo questionou o sangue dela! Ela não tem a “cara” das princesas tradicionais que estamos habituados a ver nos contos de fadas. Não dá pra comemorar ou criar expectativas e acho que ela será desafiada. Precisamos ver uma mulher negra naquele espaço? Sim, precisamos. E vamos acompanhar tudo sem esquecer que estamos assistindo um importante conto de fadas europeu moderno.
Meghan é o espelho de Doria. Saber mais sobre Doria ajuda entender essa nova geração de mulheres que tem sede de mudanças. Estamos vivendo grandes transformações também no Brasil e não posso deixar de ressaltar que isso tem um preço. É interessante saber que o príncipe terá uma sogra negra. E que esta sogra não é tola e passiva com as questões políticas e sócio-culturais da vida. Afinal foi ela quem educou Meghan e que aos onze anos de idade já havia escrito uma carta para a ex-primeira dama, Hilary Clinton, denunciando o machismo na publicidade americana. Ainda falta muito para termos um planeta 50-50, para a igualdade de gênero. Acredito que o melhor caminho para esta transformação é através de uma educação livre de sexismo e racismo. E este casamento é mais um passo nesta nossa jornada.

