CARACAS - Um candidato à Assembleia Constituinte convocada pelo presidente Nicolás Maduro foi morto a tiros na segunda-feira, durante um comício na cidade de Maracay, no estado de Aragua. O Ministério Público investigará "a morte de José Luis Rivas", 42 anos, em um incidente no qual "também resultaram feridas duas pessoas", e também a “de um jovem de 16 anos durante uma manifestação" na localidade de La Isabelica, estado de Carabobo. Forças de segurança e manifestantes se enfrentaram em várias cidades da Venezuela, com o balanço de dezenas de feridos, além das duas mortes, durante um bloqueio de ruas realizado pela oposição contra a Assembleia Constituinte convocada pelo presidente Nicolás Maduro.
Segundo a rede de notícias Telesur, o candidato à Constituinte participava de um comício quando "chegaram alguns sujeitos e atiraram". Rivas foi atingido "por oito impactos de bala".
A Assembleia Constituinte, que será eleita em 30 de julho, estará formada por 545 membros, que terão plenos poderes enquanto reformulam a Carta Magna. A oposição rejeita a Constituinte e desde 1º de abril passado os protestos contra Maduro já deixaram 93 mortos. De acordo com o instituto de pesquisa Datanálisis, cerca de 70% dos venezuelanos não concordam com a Constituinte, e 80% rejeitam o governo do presidente socialista.
Além disso, sete militares ficaram feridos pela explosão de um artefato lançado por manifestantes contra uma caravana de policiais durante um confronto em Altamira, bairro do leste de Caracas, e outros dois soldados foram baleados nas localidades de La Tahona e San Antonio, no estado de Miranda (norte). O prefeito de Chacao (leste), Ramón Muchacho, disse que ao menos 21 pessoas ficaram feridas nos distúrbios.
Com cordas, veículos e barricadas de árvores e de lixo, grupos de opositores participam do "grande bloqueio" de 10 horas convocado pela Mesa da Unidade Democrática (MUD) para estimular o plebiscito contra a Assembleia Constituinte planejada por Maduro.
— Este povo está decidido a continuar a luta pela liberdade. No domingo haverá o ato de desobediência civil mais importante da história da Venezuela —, declarou o deputado da oposição Freddy Guevara, vice-presidente do Parlamento, de maioria opositora, em um bloqueio no leste de Caracas.
À margem do poder eleitoral, os opositores da MUD realizarão no próximo domingo um plebiscito simbólico, confiantes de que a votação mostrará uma rejeição em massa à Constituinte convocada por Maduro para, segundo eles, perpetuar-se no poder. A oposição garante que os resultados do plebiscito serão o "marco zero" de manifestações simultâneas e maciças em todo o país, sem descartar uma greve geral.
A Igreja católica, que chamou o governo de "ditadura", pediu na segunda-feira a Maduro que retire de forme urgente seu projeto e "devolva" a institucionalidade democrática ao país.
“Condenamos a morte de outro jovem manifestante na Venezuela. Apenas a democracia acabará com a violência contra o povo", escreveu no Twitter o secretário-geral da OEA, Luis Almagro.
O governo afirma que nada atrapalhará a Constituinte. Em todos os estados do país, milhares de apoiadores, vestidos de vermelho, participaram na segunda-feira de atos de campanha.
— Não queremos mais guerra, não queremos uma Síria. Podemos estar chateados com revolução por certas coisas que não estão funcionando, mas todo o povo chavista tem que votar — disse Steven Márquez, em um desses atos.
Em outra concentração, a esposa de Maduro, Cilia Flores, candidata à Constituinte, assim como o filho do presidente, criticou "os loucos" que "se empenham em fechar as ruas e falam de democracia".
— Quem não quer a paz são os loucos, os irracionais, os fascistas, um grupinho muito pequeno, mas que causa muitos danos. A Constituinte trará paz — disse a primeira-dama.
Maduro assegura que com a Constituinte, um supra poder que regirá o país por tempo indeterminado, trará a estabilidade política e econômica.
A procuradora-geral, Luisa Ortega, figura mais forte do chavismo a se opôr à Constituinte, garante que o plebiscito destruirá o legado de Chávez e violenta a democracia porque não se perguntou em plebiscito se os venezuelanos gostariam de mudar sua Carta Magna. Até quarta-feira, o Tribunal Supremo de Justiça (TJS) decidirá se processará Ortega. Uma destituição da procuradora — chamada de "traidora" por Maduro — desataria outra chuva de críticas contra o governo, após a tormenta da semana passada pela invasão de um grupo chavista no Parlamento.
Segundo as normas do Ministério Público, qualifica-se como usurpação de funções uma ação tomada pela vice-procuradora-geral Katherine Haringhton, nomeada Tribunal Supremo de de Justiça (TSJ) na semana passada após recusa da procuradora-geral Luisa Ortega, figura mais forte do chavismo a se opor à Constituinte considerada “traidora” pelo governo. Haringthon nomeou a fiscal 14 da área metropolitana de Caracas, Yessia Rivera, para tomar conhecimento do caso de 14 presos políticos que fazem greve de fome, apesar de ter pedido de liberdade emitido.
De acordo com a lei do MP, é à Procuradoria Geral que pertence tal poder, não à vice. Há 11 meses, foram pedidas medidas cautelares de liberdade para os presos porque a investigação mostrou que eles não têm vínculo com o assassinato do jornalista Ricardo Durán, motivo pelo qual teriam sido detidos. Ontem, o MP interpôs uma ação de para a liberação do grupo. A fiscal 14 teria feito um pedido de revisão de medidas para os 14.

