BEIRUTE — Há três meses um vídeo circulou amplamente nas redes sociais sírias mostrando homens mascarados de joelho em uma formação, brandindo varas e se erguendo aos gritos de “Allahu Akbar” (Deus é Grande). À primeira vista parece um exemplo típico das filmagens de propaganda publicadas com frequência por grupos armados envolvidos no conflito da Síria, mas não é disso que se tratava.
— Em nome de Deus, eu sou Abu Salem al-Muhameed e anuncio a formação da Brigada de Concretagem nas áreas livres! — grita Salem para a câmera enquanto seus homens sacodem picaretas e pás e depois caem na gargalhada, uma paródia inconfundível dos líderes rebeldes exaltados que combatem o presidente sírio, Bashar al-Assad. — Se vocês destroem, por Deus, nós iremos reconstruir!
Quando o pedreiro Abu Salem tapa o buraco de um tiro numa casa no Sul da Síria, controlado pelos rebeldes, sabe que pode não ser o último serviço que faz na residência. Ele lidera um grupo de 12 pedreiros que reconstroem e consertam construções danificadas por bombas, ataques aéreos e projéteis dentro e nos arredores da cidade de Deraa.
— Existe a possibilidade de os prédios serem atingidos novamente — disse ele à Reuters. — Mas no curto prazo as pessoas deveriam poder buscar refúgio em suas casas.
Depois que o vídeo da "Brigada Vocês Destroem e Nós Reconstruímos" apareceu, as pessoas começaram a abordar Abu Salem nas ruas.
— As pessoas disseram: vocês são a melhor brigada formada desde o início da crise síria — contou ele por telefone
A guerra da Síria destruiu a economia nacional e dividiu a nação em uma colcha de retalhos de áreas de controle que cruzam rotas comerciais, provocando o aumento dos preços e a escassez local de commodities vitais. Mas às vezes o dinheiro fala mais alto do que a lealdade política, e em toda a Síria se encontram bens nas frentes de batalha graças às altas propinas e impostos pagos em postos de controle.
Abu Salem vive em uma área rebelde, mas consegue seus materiais de construção de uma zona controlada pelo governo. O cimento fornecido por Damasco pode custar cerca de 30 mil libras sírias no local, ele diz, mas chega em Deraa com o preço entre 50 mil a 55 mil libras após passar em todos os postos de controle.
— Na hora que chegam até nós o preço tornou-se 50, 60 ou até 100% mais alto que o preço real — disse Salem, um homem de 39 anos e pai de cinco filhos, que era um pedreiro antes da guerra.
Sem acesso a ferramentas modernas e enfrentando o preço alto dos materiais devido à guerra, os homens de Abu Salem despedaçam edifícios, misturam concreto e carregam cargas. Apesar das dificuldades, eles mantêm o senso de humor. Salem é apaixonado por sua missão de reverter a destruição, mas lamenta que não pode fazer um trabalho tão bom quanto gostaria. Não há engenheiros, técnicas modernas de construção ou misturadores de cimento. Ele e seus colegas usam destroços e ferro de prédios destruídos e fazem tudo à mão.
— A qualidade do edifício mudou significantemente... Se houvesse equipamento, poderíamos construir mais rápido e melhor. Porém, essas são as condições da guerra — disse Abu Salem, que teve que desocupar e reparar sua própria casa devido a ataques aéreos.
Os membros de sua brigada são pagos de acordo com o que os clientes podem dar, com a média equivalente de meros U$S 4 ou US$ 5 dólares por dia.
— É só o suficiente para comida e água. Não há como guardar por causa dos altos preços — diz Abu Salem.
O pedreiro diz que ele e seus homens qualquer um que eventualmente concorde em reconstruir a Síria.
— Porém, se alguém vir um um foguete ou uma arma e disser ‘lute’, eu não vou — afirma Salem.

