RIO E BUDAPESTE — Enquanto o premier ultranacionalista da Hungria, Viktor Orbán, endurece a vigilância contra quem ajuda os refugiados — a que retrata como invasores que ameaçam o pequeno país da Europa Central —, voluntários e trabalhadores humanitários buscam resistir às tentativas do governo de desencorajá-los com a criminalização da sua missão. Dentre eles, está a brasileira Erika Rossi, que há nove anos fez as malas e se mudou a Budapeste para contribuir à proteção dos solicitantes de asilo. Desde então, acompanhou a radicalização xenófoba no Palácio Sándor e a expansão da latente intolerância nas ruas.
Em 2015, quando a Europa vivia o ápice da sua crise migratória, com a chegada de centenas de milhares de sírios e afegãos, Erika ela comprou uma Kombi para levar mantas e barracas doadas por uma rede de voluntários europeus à fronteira com a Sérvia, onde acampou por dois meses. A paulistana também trabalhou em campos de refugiados, onde lhes ensinava como procurar um apartamento, quais eram seus direitos e a melhor forma de se alimentar com o pouco dinheiro que recebiam.
Com a inserção neste universo, passou também a oferecer práticas de música para ajudá-los a lidar com o ambiente hostil e, por vezes, de difícil convivência entre comunidades de origens diversas.
— Através da música, senti o poder de cura e união entre todos eles. Aquilo me gerava uma energia boa muito grande — conta Erika. — Queria ajudar estas pessoas sem depender do governo. Elas estavam num limbo, então eu fazia o que estava ao meu alcance.
Mas é na rejeição aos imigrantes que o premier húngaro, no poder desde 2010, constrói a sua popularidade num país que já fechou fronteiras e se recusa a compartilhar responsabilidades de acolhimento com vizinhos. O seu histriônico tom ultranacionalista rendeu em abril a terceira reeleição consecutiva com maioria parlamentar confortável para o seu partido, o Fidesz (União Cívica Húngara).
Em junho, o Parlamento aprovou um pacote que prevê até 12 meses de prisão para indivíduos ou organizações que ajudem imigrantes a entrarem no país sem autorização do governo; distribuam informações sobre como dar entrada em processos de requerimento de asilo; ou oferecem assistência financeira a imigrantes. Separadamente, uma emenda constitucional tornou ilegal a realocação de estrangeiros na Hungria, para driblar a proposta da União Europeia (UE) de criar cotas de refugiados para cada país-membro.
Antes, já havia sido construída por Budapeste uma cerca na fronteira com a Sérvia, na qual o governo, segundo denúncia da ONG Save The Children de 2017, teria ilegalmente forçado refugiados a retrocederem. Segundo o Alto Comissariado da ONU para Refugiados (Acnur), a Hungria acolhe 5,7 mil solicitantes de asilo, o que corresponde a 0,06% da sua população. No ano passado, segundo a Eurostat, recebeu apenas 3 mil pedidos de acolhimento, em comparação a 198 mil na Alemanha e 127 mil na Itália.
A criminalização da ajuda humanitária já fez a Open Society Foundations — cujo fundador, George Soros, deu nome ao pacote de restrições de junho, o “Stop Soros” — deixar o país para se estabelecer na Alemanha por conta do que chamou de “ambiente repressivo”. A também recém-aprovada taxação de 25% sobre fundos de instituições que promovam a imigração levou a Universidade Centro-Europeia a suspender temporariamente um programa que beneficia refugiados de cem países. Cerca de 50 estudantes que começariam já neste ano tiveram o sonho adiado.
Para Erika, este é o pior momento para os direitos humanos na Hungria desde que ela chegou ao país. Sem oposição articulada contra Orbán — o premier tem alarmado a UE com as suas ações para tolher a independência do Judiciário e da imprensa — , ela sente que o clima geral nas grandes cidades é de apatia para o drama dos refugiados, mesmo entre aqueles que não compartilham das visões do premier.
— Orbán fechou a fronteira, acabou com muitos campos e começou a campanha doentia contra imigrantes. A intolerância aumentou muito, com grupos tentando agredir refugiados ou enviando cartas com discurso anti-imigração às casas. E principalmente no interior, onde provavelmente muitas pessoas nunca nem mesmo vão conhecer um refugiado na vida — diz ela, relatando também ter sido hostilizada por moradores de comunidades próximas à Sérvia por ajudar os refugiados em rota.
Organizações de advocacia pelos direitos humanos desafiam o governo com o seu trabalho, tendo, por exemplo, denunciado recentemente ao Tribunal Europeu dos Direitos do Homem (TEDH) que as autoridades húngaras se recusavam a alimentar os requerentes de asilo mantidos em campos na fronteira.
Por sua vez, Erika agora trabalha num projeto de integração cultural para levar, a partir de 2019, artistas brasileiros independentes à Hungria, onde poderão participar de oficinas com refugiados viajando num ônibus transformado em estúdio musical itinerante. Apesar de não ter mais acesso à fronteira, por conta das restrições do governo, ela não pretende desanimar :
— Depois que você vê algumas coisas, não tem como voltar atrás. Estas são pessoas que realmente precisam de ajuda. A gente não pode desistir. Afinal, é o que o governo quer.

