Por Ricardo Brito e Marta Nogueira
BRASÍLIA/RIO DE JANEIRO, 18 Ago (Reuters) - O Brasil deveria voltar a realizar mega projetos de mineração, de US$15 bilhões a US$20 bilhões, e a Vale tem capital para isso, disse o presidente da mineradora, Gustavo Pimenta, nesta terça-feira, ao defender reformas para o setor que "destravem" o potencial do segmento no país.
Ele pontuou que o último mega projeto desenvolvido pela empresa foi a mina S11D, inaugurada há cerca de dez anos na Serra de Carajás, no Pará. O executivo citou ainda que há muito potencial a ser desenvolvido na região, de onde a companhia extrai boa parte de seu minério de ferro.
"Nós temos capital, temos como fazer, temos conhecimento técnico. A gente precisa entender que esses projetos vão mover o ponteiro, a gente tem a infraestrutura... e a gente precisa acelerar o desenvolvimento desses projetos", afirmou Pimenta, ao participar do evento "Destravando o Potencial da Mineração no Brasil", onde lançou um estudo com propostas para o setor.
"A gente quer destravar o potencial do Brasil", acrescentou ele a jornalistas, defendendo uma agenda de Estado que possa identificar "projetos transformacionais", que poderiam ser trabalhados em forças-tarefas junto ao governo, "com todo rigor ambiental necessário".
No estudo com propostas para o setor, elaborado com a colaboração da consultoria Accenture, a Vale defendeu que a produção mineral anual do Brasil pode saltar para até R$535 bilhões em 2035, aumento de 78% na comparação com os cerca de R$300 bilhões atuais, caso seja implementado um conjunto de medidas que permita a otimização do licenciamento ambiental, ampliação do mapeamento geológico e fortalecimento da regulação do setor.
O relatório aponta que o Brasil reúne algumas das maiores reservas globais de minerais estratégicos, mas perdeu competitividade na última década devido a questões relacionadas ao licenciamento, à infraestrutura e ao conhecimento geológico. Atualmente, somente 28% do território nacional possui cobertura geológica considerada adequada para orientar investimentos em pesquisa mineral, segundo o levantamento.
Nos últimos anos, a Vale precisou cortar capacidade de produção e rever a segurança de diversos projetos após o rompimento mortal de duas barragens de mineração em Minas Gerais, em 2015 e 2019. Após as estruturas colapssarem e deixarem centenas de mortos e diversos danos socioambientais, novas regras foram criadas e houve mais cobranças para o desenvolvimento de novos projetos.
Ao ser questionado sobre como garantir impacto positivo e geração de valor social e ambiental, Pimenta afirmou que é um processo pelo qual a empresa tem avançado ao longo dos últimos anos, "a partir de muita dor e aprendizado".
"Brumadinho foi um momento de muita dor para a companhia, para a sociedade. Nós frustramos a sociedade brasileira naquele momento, geramos muita dor, muito impacto, e desde então a companhia passa por uma profunda transformação", afirmou, sem citar o rompimento de barragem em Mariana, que pertencia à Samarco, joint venture da Vale com a BHP.
No estudo lançado pela Vale, a empresa defende que o país pode aproveitar a crescente demanda global por minerais críticos usados em veículos elétricos, armazenamento de energia, data centers e infraestrutura para ampliar sua relevância no mercado internacional, por meio de uma agenda coordenada entre governo, setor privado e sociedade.
PROPOSTA AO ESTADO
Também presente no evento, o presidente do Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Aloizio Mercadante, afirmou que o Estado precisa ser parceiro para acelerar investimentos e disse haver interesse crescente no segmento de mineração no Brasil, com o crescimento global da demanda por minerais críticos.
Mercadante disse ainda acreditar ser possível combinar proteção ambiental e exploração mineral, e citou a Vale como um exemplo.
A proposta elaborada pela Vale a partir do estudo será entregue aos candidatos à Presidência da República nas eleições de 2026. Entre as medidas defendidas estão a padronização dos processos de licenciamento, o fortalecimento de órgãos reguladores e ambientais, incentivos à transformação mineral, melhorias na infraestrutura e no fornecimento de energia e a implementação de uma política nacional para minerais críticos e estratégicos.
Segundo estudo apresentado pela mineradora, o setor poderia gerar R$1,3 trilhão em arrecadação entre 2026 e 2035, ante cerca de R$743 bilhões arrecadados na última década, além de elevar o número de empregos diretos, indiretos e induzidos para até 5,3 milhões no período, caso as iniciativas propostas sejam implementadas.
(Reportagem de Ricardo Brito em Brasília e Marta Nogueira no Rio de Janeiro; edição de Roberto Samora)



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