WASHINGTON, EUA (FOLHAPRESS) - Em seu primeiro discurso do Estado da União para uma Câmara controlada pelo Partido Republicano, o presidente dos EUA, Joe Biden, pediu união e enalteceu a capacidade do país de superar crises, como a pandemia de Covid-19 e o ataque ao Capitólio em 2021.
Enquanto a classe política aguarda que Biden lance formalmente nas próximas semanas sua campanha pela reeleição, o democrata evitou ataques duros ao partido adversário na noite desta terça-feira (7) e direcionou seu foco à exaltação dos feitos de seus dois anos de governo.
"Amigos republicanos, se conseguimos trabalhar juntos no último Congresso, não há razão para não trabalharmos juntos neste novo Congresso. As pessoas nos enviaram uma mensagem clara. Lutar por lutar, poder pelo poder, conflito pelo conflito, não nos leva a lugar nenhum. E essa sempre foi minha visão para o país: restaurar a alma da nação, reconstruir a espinha dorsal da América, a classe média, para unir o país", disse.
Estado da União é o nome dado ao discurso que o presidente americano faz todos os anos --com exceção do primeiro ano de governo-- para prestar contas e divulgar prioridades do governo ao Congresso e aos juízes da Suprema Corte. Previsto na Constituição, é um dos momentos mais aguardados da política americana e transmitido pelos principais canais da TV aberta.
O discurso de Biden tem sido visto como uma espécie de anúncio suave da reeleição no ano que vem --quando terá quase 82 anos. Por isso teve caráter mais otimista, propositivo e político, diferente do feito no ano passado, poucos dias após o começo da Guerra da Ucrânia, quando foi forçado pelas circunstâncias a focar política externa e anunciou o fechamento do espaço aéreo americano para voos da Rússia.
Já em clima de "campanha soft", Biden começará na quarta-feira (8) um giro por estados americanos, a começar por Wisconsin, e na manhã de sexta-feira (10) deve receber governadores na Casa Branca --mesmo dia em que, a tarde, receberá o presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
"A história da América é uma história de progresso e resiliência. Somos o único país que emergiu de cada crise mais forte do que quando entramos nela. É isso que estamos fazendo novamente", disse nesta terça, antes de exaltar a recuperação econômica pós-Covid.
"Dois anos atrás, nossa economia estava cambaleando. Enquanto estou aqui nesta noite, tivemos um recorde de 12 milhões de novos empregos -mais empregos criados em dois anos do que qualquer presidente já criou em quatro anos. Há dois anos, a Covid fechou nossos negócios, fechou nossas escolas e nos tirou muito. Hoje, a Covid não controla mais nossas vidas."
De fato, o nível de desemprego no país está em mínimas recordes com a criação de novas vagas a cada mês surpreendendo economistas, e Biden ainda tem conseguido controlar a inflação, mas as perspectivas econômicas para este ano são de crescimento baixo ou mesmo recessão.
Biden também falou diante da plateia --na qual estavam parlamentares republicanos que ainda contestam o resultados das eleições que lhe deram a vitória sobre Donald Trump-- sobre o ataque ao Capitólio em 6 de janeiro de 2021. "Há dois anos nossa democracia enfrentou sua maior ameaça desde a Guerra Civil. Hoje, embora machucada, nossa democracia permanece inflexível e intacta", disse.
Até o ano passado a imagem de Biden discursando aos parlamentares vinha acompanhada da vice-presidente, Kamala Harris, à sua direita, e da democrata Nancy Pelosi, então presidente da Câmara, à esquerda, reforçando a imagem de força do Partido Democrata.
Desta vez, Biden falou com o novo presidente da Casa, o republicano Kevin McCarthy, nos fundos, uma lembrança de que não são mais os democratas quem dão as cartas ali.
Apoiador do ex-presidente Donald Trump, McCarthy reforçou na última semana a intenção de abrir investigação contra Hunter Biden, filho do presidente, e logo no começo de janeiro a nova Câmara aprovou a criação de uma comissão para investigar a apuração do Departamento de Justiça contra Trump.
Um dos momentos mais memoráveis dos últimos discursos de Estado da União, aliás, veio da tensão entre presidente e chefe da Câmara de partidos diferentes. Em 2020, Trump ignorou o cumprimento de Pelosi ao ir ao púlpito. Depois, Pelosi, que já havia aberto processo de impeachment contra o presidente, rasgou cópias do discurso em frente às câmeras.
Nesta terça, porém, o clima era mais ameno, na linha do discurso clamando por união. McCarthy e Kamala conversavam de maneira amigável no púlpito antes da chegada de Biden, e o presidente da Câmara chegou a pedir que os republicanos se comportassem na sessão. Além disso, o discurso de Biden não teve os habituais ataques aos "extremistas do Maga", em referência ao slogan de Trump, "Make America Great Again" (faça os EUA grandiosos de novo).
Biden exaltou os projetos que tiveram apoio bipartidário, como o reconhecimento do casamento gay. Pediu agora consenso para aprovação de pacotes de combate ao câncer e de assistência a veteranos de guerra, entre outras coisas.
Se Biden quer mesmo tentar a reeleição, porém, deverá se preocupar com sua popularidade. O democrata chega à metade do governo com 43,2% de aprovação, segundo o agregador do portal FiveThirthyEight. A cifra é pouco superior à que Trump tinha na mesma altura do mandato (40,2%), mas abaixo das de Barack Obama (48,5%) e George W. Bush (59,5%). A taxa de desaprovação do atual presidente é de 52,2%.
Trump, seu adversário mais popular, já anunciou que vai concorrer novamente à Presidência. Outras peças do xadrez republicano se movimentam para isso, como o governador da Flórida, Ron DeSantis.

