
Tóquio (AFP) - O japonês Mamoru Samuragochi não é um compositor clássico, nem surdo, diferentemente de suas declarações, afirmou nesta quinta-feira seu "laranja", em entrevista a uma revista seguida de uma coletiva de imprensa.
Diante de dezenas de jornalistas e fotógrafos, Takashi Niigaki saiu das sombras e de um silêncio de 18 anos.
Esta confissão, transmitida ao vivo pela televisão, durou mais de uma hora. O homem que foi o cérebro musical de um suposto compositor surdo conhecido como "Beethoven japonês" afirmou nesta quinta-feira que o falso maestro não tem problemas de surdez e que nem mesmo sabe escrever partituras.
"Há 18 anos sou o 'laranja' de Samuragochi", declarou.
Na quarta-feira, o próprio Samuragochi, de 50 anos, confessou que havia contratado outro homem para escrever suas 50 obras mais conhecidas. O impostor ficou famoso em meados dos anos 1990 com composições clássicas que foram a trilha sonora de vários videogames.
Antes de sua confissão na quarta-feira, o compositor dizia ter se tornado totalmente surdo há 15 anos, embora tenha continuado trabalhando. Entre outras obras produziu a "Sinfonia Nº 1, Hiroshima", uma homenagem às vítimas da bomba atômica que os Estados Unidos lançaram nesta cidade do oeste do Japão no dia 6 de agosto de 1945.
Com seus óculos escuros e sua longa cabeleira negra, o "Beethoven japonês" havia conquistado a glória e os corações durante duas décadas, dizendo que compunha, apesar de sua surdez.
Samuragochi não respondeu publicamente a estas novas declarações.
Em uma entrevista à revista semanal Shukan Bunshun publicada nesta quinta-feira, o "laranja" Takashi Niigaki descreve uma fraude cuidadosamente orquestrada na qual Samuragochi - que certa vez chamou sua perda de audição de "um presente de Deus" - interpretava o papel de um artista atormentado.
Niigaki, que afirmou que já não podia suportar a história falsa de um "Beethoven da era digital", disse que este compositor frequentemente abandonava sua máscara de surdo.
"No início pode fazer alguns sinais com a mão ou ler os lábios, mas à medida que a conversa avança começa a conversar normalmente", disse o professor de uma escola de música de Tóquio na entrevista.
"Acredito que custava muito a ele simular que estava totalmente surdo. Recentemente, quando ficamos sozinhos em sua casa, falamos normalmente desde o início", acrescentou.
Niigaki acrescentou na coletiva de imprensa que "desde o primeiro dia que me reuni com ele até agora jamais tive a impressão de que fosse surdo".
Este "laranja" afirmou que no início pensou que havia sido contratado como assistente do compositor.
"Mas depois descobri que ele não consegue nem mesmo escrever partituras", sustentou, acrescentando que, "no fim, eu era um cúmplice".
Na entrevista ao semanário Shukan Bushun, o professor de música Niigaki, de 43 anos, afirma que "no início aceitei (compor para ele) sem me preocupar. Mas se tornou cada vez mais famoso, e eu comecei a temer que um dia o prendessem".
"Muitas vezes quis parar, mas ele me pedia para continuar e me pagava (...) No ano passado chegou a me dizer em uma mensagem eletrônica que se suicidaria se eu deixasse de compor" para ele, explicou.
Depois destas declarações, Samuragochi permaneceu silencioso.
Na quarta-feira, por meio do advogado em um comunicado obtido pela AFP, indicou que "lamentava profundamente ter traído seus admiradores e decepcionado outros. Sabe que não tem nenhuma desculpa".





