RIO — A guerra na Síria entra em seu sexto ano sem perspectiva de fim, com um saldo de centenas de milhares de mortos, milhões de refugiados e uma condição de vida cada vez pior para a população que resistiu num país em ruínas. As condições de saúde se deterioraram, e nem hospitais são poupados dos intensos bombardeios. Em seu novo relatório divulgado nesta terça-feira, a organização Médicos Sem Fronteiras (MSF) denuncia ataques intencionais contra instalações médicas.
“Em meio à persistente e crescente brutalidade do conflito sírio, os ataques a instalações médicas, funcionários e pacientes tornaram-se rotina. As instalações foram danificadas ou destruídas várias vezes em múltiplos ataques, aparentemente destinados a garantir a sua completa destruição”, afirma ao relatório, intitulado “Mudanças nas práticas médicas na Síria – dilemas e adaptações nas instalações de saúde continuamente ameaçadas de ataque”.
Somente em 2016, 81 instalações do MSF nas cidades de Azaz e Aleppo foram destruídas ou danificadas em ataques.
— Funcionários de saúde na Síria, incluindo médicos, enfermeiras e equipes de resgate estão arriscando suas vida todos os dias tratando pacientes — disse ao GLOBO Evita Mouawad, porta-voz do MSF para assuntos humanitários no Oriente Médio, baseada em Amã. — Em Aleppo, instalações foram danificadas diariamente por causa dos bombardeios. Foi um momento muito difícil para os médicos e nossa equipe no local tentando tratar os pacientes com limitação de medicamentos e materiais.
Segundo a porta-voz, nesses seis anos de conflito, as demandas por cuidados de saúde cresceram significativamente. Lado mais frágil da guerra, muitas crianças já sofrem de transtornos mentais e nunca foram vacinadas. Além do aumento nos casos de trauma, surtos de sarampo tornaram-se comuns, e a poliomelite apareceu muito tempo depois de ter sido erradicada na Síria.
— Muitos menores de 5 anos não são vacinados para meningite e sarampo, doenças que estão ressurgindo nos campos de refugiados da Síria. E num longo prazo poderia virar uma epidemia — advertiu Evita.
Uma das preocupações é que parte das demandas de saúde está sendo ignorada: serviços não emergenciais como vacinas, planejamento familiar, assistência e cuidados para doenças crônicas não são mais acessíveis para boa parte da população.
— Como a emergência tem sido priorizada nos últimos anos por causa do conflito, outros problemas de saúde estão sendo ignorados. Pacientes com diabetes sem acesso a insulina, ou pacientes com problema no coração que não conseguem obter medicamentos. Algumas dessas doenças podem ser mortais.
A frágil situação na Síria nega à população o acesso a instalações médicas. Devido às ameaças de ataque, o MSF foi forçado a adequar seus serviços.
— Por causa dos riscos de segurança e por causa da falta de acesso a áreas dentro do país, tivemos que adaptar o nosso trabalho durante os anos. Começamos a oferecer suporte às instalações médicas à distância, enviando equipamentos médicos e remédios e orientando as equipes pela internet e Whatsapp,
Iniciada há seis anos, o levante popular na Síria contra o regime de Bashar al-Asad se transformou em uma guerra devastadora que já deixou mais de 320 mil mortos. O Observatório Sírio para os Direitos Humanos (OSDH), contabilizou 321.358 mortos, incluindo mais de 96 mil civis e 17 mil crianças.
O país tinha cerca de 23 milhões de habitantes antes do conflito. Metade da população foi forçada a abandonar as suas casas por causa da guerra. Dentro do país, existem cerca de 6,6 milhões de deslocados.



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