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Assassinato de ex-presidente dificulta acordo de paz no Iêmen

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SANAA - O conflito no Iêmen, que desde 2015, já deixou cerca de dez mil mortos, ganhou um importante capítulo com a morte do ex-presidente Ali Abdullah Saleh, que comandou o país por mais de 30 anos e foi forçado a deixar o poder em 2012 após os protestos da Primavera Árabe. A morte de Saleh, assassinado por milícias xiitas houthis enquanto fugia da capital iemenita, Sanaa, foi uma resposta à reaproximação do ex-dirigente com a Arábia Saudita, que apoia o presidente Abd-Rabbo Mansour Hadi, combatido pelos rebeldes, e dificulta qualquer possibilidade de entendimento entre os dois lados do conflito que assola o país desde 2015.

De acordo com militares houthis, o comboio que levava Saleh e outros líderes de seu partido, o Congresso Geral do Povo (CGP), da capital à sua cidade natal, Sanhan, foi interceptado e atacado. Fontes do partido alegam que o presidente teria sido alvejado por franco-atiradores durante a fuga. Mais cedo, sua casa em Sanaa havia sido destruída nos confrontos entre houthis e forças sauditas que, de acordo com a Cruz Vermelha Internacional, deixou pelo menos 125 mortos e mais de 200 feridos nos últimos cinco dias.

As tensões no país ganharam força durante o final de semana com a declaração de Saleh — até então apoiando, há três anos, a luta dos houthis contra seu sucessor — de que estaria pronto para “virar a página” com a coalizão comandada pelos sauditas caso os ataques e o bloqueio comercial imposto ao Iêmen fossem interrompidos. Os líderes houthis classificaram a iniciativa como “uma conspiração” e “uma tentativa de golpe contra uma frágil aliança na qual Saleh nunca acreditou verdadeiramente”.

— Foi abortada uma grande conspiração que representava uma ameaça para o Iêmen — afirmou, sem citar diretamente o ex-presidente, o líder houthi Abdul-Malik al-Houthi, em discurso transmitido pela TV. — A grande crise que ameaçava a segurança do país foi superada.

Ali Abdullah Saleh chegou à Presidência do Iêmen do Norte em 1978, e assumiu o comando do Iêmen reunificado em 1990. A aliança entre suas forças — especialmente sua Guarda Republicana, que permaneceu fiel mesmo após sua saída da Presidência — e os rebeldes houthis do Norte possibilitou que mantivessem o controle da capital, Sanaa, obrigando o governo internacionalmente reconhecido e as forças de seus aliados do Golfo Pérsico a se refugiarem em Áden, no Sul. A já frágil união sofreu um abalo no últimos meses depois que o ex-presidente deixou as milícias rebeldes de lado, indicando a possibilidade de um acordo com os sauditas. A Arábia Saudita combate os houthis numa tentativa de reduzir o poder de influência do Irã — seu principal rival geopolítico no Oriente Médio — que financia e treina as milícias xiitas do Iêmen. Antes da improvável união contra Hadi, Saleh derrotou forças houthis em pelo menos seis ocasiões.

Exilado na Arábia Saudita, Hadi exortou a população iemenita a se unir contra os houthis.

— Vamos dar as mãos para pôr fim ao controle exercido por essas gangues criminosas e abrir um novo capítulo que livrará nosso querido Iêmen desse pesadelo — afirmou o presidente.

Um vídeo, que mostra o corpo de Saleh com um grave ferimento na cabeça sendo carregado em um cobertor vermelho por diversos homens armados, espalhou-se pelas redes sociais na tarde de segunda-feira. Em Áden, funcionários do governo iemenita anunciaram, anonimamente, uma ofensiva para retomar a capital do país, informou a agência France Press. Oficialmente, uma oferta de anistia foi anunciada aos apoiadores de Saleh pelo primeiro-ministro Ahmad Obaid bin Daghr.

Peter Salisbury, especialista em Iêmen do centro de estudos Chatham House, em Londres, acredita que a situação agora pode piorar.

— Sem Saleh, e ninguém com quem os sauditas possam fazer um acordo, é bem provável que eles endureçam, mas a extensão precisa do que farão depende muito do que Washington permita-lhes fazer. Tudo pode ficar muito confuso e sangrento.

Enquanto forças da coalizão comandada pela Arábia Saudita continuam a bombardear pontos de concentração de houthis na capital, o bloqueio imposto pelos aliados de Hadi é uma preocupação cada vez maior. Em meio ao que a ONU classificou como “a maior crise humanitária do planeta”, entidades de assistência alertaram que estão perdendo a capacidade de ajudar a população civil.

“Ambulâncias e equipes médicas não conseguem chegar à população, que também não tem acesso a comida e outros suprimentos”, afirmou, no Twitter, Rajat Madhok, do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef). “Agentes humanitários não conseguem viajar e implementar programas essenciais para salvar vidas. A recente onda de violência não poderia ter chegado numa hora pior”.

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