Pessoas unidimensionais confundem, assustam e irritam, mas não podem surpreender.
Por que, então, jornalistas, analistas políticos e até psiquiatras americanos alinhavam tantas interpretações, previsões e adjetivos amargos a respeito do atual presidente de seu país? Enquanto isso, essas vozes de oposição são, pelo lado oposto, desprezadas como corruptoras e falsas.
A nação está profundamente dividida por classe, atividade, geografia, educação, como nunca se viu desde o movimento dos direitos civis e talvez desde a Guerra de Secessão. Se há quem diga que um país se define pelas atitudes diante das notícias que seus cidadãos leem, os Estados Unidos parecem irremediavelmente fraturados; hoje quem lê o “New York Times” ou o “Washington Post” não quer saber da Fox News ou da “Breitbart News”.
É óbvio que as fissuras na sociedade americana existiam antes de Trump, que se limitou a explorá-las. Com raras exceções, Trump é quase sem imaginação, uma pessoa decididamente monocórdica. Foi assim desde a eleição. Sua estratégia eleitoral era simplória, porém eficaz: apenas apresentava trivialidades da cartilha republicana mais radical. Depois, dependendo do entusiasmo das audiências, ele as incorporava como pontos de plataforma.
Não se pode daí inferir que Trump serve à ideologia atualmente reinante no seu partido. É justamente o contrário: ele se apropria do que os republicanos, em sua maioria, acreditam. Mesmo assim, o Partido Republicano e Trump estão em rota de colisão. Políticos condenam o conteúdo de muitas mensagens do presidente, evitando referir-se a ele pelo nome.
Trump é uma casca vazia que funciona segundo o exercício unilateral de sua vontade. De que adianta perguntar-se em que ele realmente acredita?
Diante da pergunta se, no fundo e na realidade, o presidente acalenta ideias e valores racistas, é fácil encontrar evidências ou entrevistas antigas que sustentem uma resposta positiva ou negativa.
A solidão de Trump cresce a cada dia. O Legislativo aprovou um projeto de lei que sacramentou sanções à Rússia de Putin, a quem ele cortejava e que o teria ajudado na disputa eleitoral. E, principalmente, não conseguiu derrubar o sistema de seguro-saúde semipúblico, chamado de Obamacare.
Dois representantes do establishment republicano que desempenhavam as funções de chefe de gabinete e porta-voz abandonaram ou foram demitidos da Casa Branca, onde atualmente prevalece a intriga, o caos, a disputa territorial e a desunião.
Membros do conselho consultivo que reorientariam uma nova política econômica para o país começaram a pedir seus desligamentos desse foro, a ponto de Trump se ver forçado a dissolver o grupo. Líderes militares que, nos Estados Unidos, costumam se manter à distância da política, sem falar em Trump, censuraram duramente grupos racistas que o presidente não teve coragem de reprovar.
Trump usa, a torto e a direito, a palavra “lealdade” quando o que exige é obediência. Afinal, lealdade que exclui alguma forma de sentimento mútuo não passa de despotismo solitário. Não há quem sobreviva a seu lado, muito menos quem, como Stephen K. Bannon, se declare responsável pelos caminhos de Trump.
O que hoje espanta no desconcerto governamental foi sutilmente explicitado num dos momentos festivos que se seguiram à posse. Trump e sua esposa dançaram ao som de um sucesso de Frank Sinatra: “My Way”. A letra da música são as palavras de uma pessoa perto da morte, dizendo que fizera tudo até então da maneira que quis. Não é uma música de abertura e esperança, mas de fechamento egocêntrico, uma espécie de toque fúnebre.

