Uma das características mais marcantes do início do governo Trump é seu o uso político da mentira. O grande assunto do fim de semana foi a afirmação absolutamente falsa de seu secretário de imprensa, Sean Spicer, de que Donald Trump teria atraído o maior público da História das cerimônias de posse presidenciais no país. Por que um líder veria vantagem em fazer com que seus subordinados promovam tamanhas mentiras?
Em primeiro lugar, o líder em questão quer enganar o povo e pede isso a seus subordinados porque a maioria dos cidadãos não se preocupará em checar as informações divulgadas. Mas essa é uma explicação óbvia, e a verdade é bem mais profunda.
Ao pedir que seus subordinados mintam, um líder pode enfraquecer a postura independente deles, incluindo diante do público, da mídia e de outros membros da equipe de governo. Isso faz com que esses indivíduos se tornem cada vez mais dependentes e menos propensos a criar rebeliões independentes contra a estrutura de comando. Tais cadeias de mentiras são uma tática comum quando um líder desconfia de seus subordinados, e espera continuar desconfiando deles no futuro.
Outra razão para promover mentiras é o que os economistas chamam às vezes de filtros de lealdade: para garantir que alguém é verdadeiramente leal, peça-lhe que faça algo absurdo ou estúpido. Os que hesitarem não estão com você por inteiro. Esse também é um sinal de desconfiança, e é parte da mesma visão de mundo que faz com que Trump dependa tanto de seus familiares.
Trump se especializa em mentiras de status inferior, dizendo “x” quando obviamente a realidade é “não x”. São proclamações de poder, e sinais de que as opiniões da mídia tradicional e de seus oponentes políticos não serão levadas em conta. A mentira precisa ser entendida como mais que uma mentira. Muitos americanos, em especial muitos de seus apoiadores, se mostram mais confortáveis com esse estilo do que com as mentiras mais “elaboradas” que pensam ouvir de políticos tradicionais. Em outras palavras, o governo Trump está enviando sinais de lealdade a seus apoiadores ao se livrar de ligações com outros grupos.
As mentiras de status inferior também são uma estratégia de curto prazo. Elas representam a crença de que muita coisa pode ser alcançada em um tempo relativamente curto, misturada com alguma distorção da verdade, e de que a credibilidade de longo prazo não precisa ser mantida. Uma vez que tenhamos deixado de culpar Trump por vários erros, teremos que tirar um momento para admitir que devemos temer pelo momento em que ele possa ter razão.
Portanto, o cenário geral é esse: o governo Trump não confia nem em seus indicados nem em seus apoiadores, e está criando uma situação na qual a falta de confiança é recíproca. Isso é, acima de tudo, uma estratégia pra conseguir alcançar as coisas, e esses primeiros cem dias serão problemáticos.

