Houve um tempo (mais ou menos três meses atrás) em que “notícia falsa” tinha um significado claro. Eram as palavras usadas para falar de mentiras e histórias absolutamente fabricadas, e o termo ganhou projeção enquanto Facebook e Google prometiam limpar parte do lixo que poluía a internet durante a eleição presidencial.
Desde então, os conservadores liderados por Donald Trump roubaram o termo para si e passaram a redefini-lo como, basicamente, qualquer matéria que não lhes agradasse. No cúmulo do absurdo, Trump afirmou na última segunda-feira que “qualquer pesquisa negativa era uma notícia falsa”.
Todos, salvo os membros do rebanho do presidente, reconhecem a falácia lógica de tal declaração. Mais traiçoeira é a ideia de que uma reportagem é falsa caso precise de correção. Essa definição agrupa, injustamente, má-fé e erros que inevitavelmente acontecem no jornalismo honesto. Trump mostrou apoiar tal explicação ao compartilhar um artigo do site conservador “The Federalist” que se propunha a identificar 16 notícias falsas.
Algumas das reportagens apontadas apresentavam erros, mas poucas poderiam ser consideradas fabricações, e apenas uma delas havia surgido diretamente de um jornalista (do “Observer”, que já pertenceu ao genro de Trump, Jared Kushner) e foi rapidamente desmentida.
Outros casos envolvem o site “Daily Beast” reproduzindo uma reportagem fictícia sobre o ataque a tiros na mesquita de Quebec, retirada de uma conta de Twitter que imitava o estilo usado na conta da agência de notícias Reuters. Ou uma afiliada da Fox em Detroit que não checou a veracidade do depoimento de um imigrante iraquiano segundo o qual os vetos migratórios ordenados por Trump haviam evitado que sua mãe recebesse tratamento médico, causando sua morte, quando, na verdade, ela morrera cinco dias antes da ordem executiva.
Outras notícias citadas pelo “Federalist” não foram inventadas, elas simplesmente estavam erradas. O melhor exemplo surgiu com Zack Miller, da revista “Time”, que enviou e-mails a jornalistas afirmando que o busto de Martin Luther King Jr. não estava mais exposto no Salão Oval. Na verdade, ele estava oculto atrás de uma porta e de um agente do Serviço Secreto no momento em que Miller esteve no local. O busto de King substituíra o de Winston Churchill na era Obama, e Trump dissera que pensava em trazer de volta a imagem do ex-premier britânico. Quando Miller viu o busto de Churchill e não o de King, deduziu que um substituíra o outro. Ele estava errado, mas isso não significa que espalhou notícias falsas.
E ainda, em muitos casos, não há qualquer erro. O “Federalist” reclama da cobertura de veículos alinhados à esquerda sobre a frase da nova secretária de Educação, Betsy DeVos, na qual ela defendeu armas de fogo nas escolas para deter possíveis ataques de ursos em estados como o Wyoming. Talvez o site até tenha razão em afirmar que esses veículos ignoraram a mensagem sobre a necessidade de deixar que distritos escolares decidam suas políticas em relação a armas, mas coberturas irônicas não são o mesmo que notícias falsas.

