Toda vez que o Trump parece que vai obter uma vantagem, ele mesmo se sabota, torpedeando um pacote legislativo, demitindo uma autoridade, fazendo declarações absurdas a líderes estrangeiros ou escrevendo bravatas no Twitter, para espanto de seus assessores. Desde que chegou à Presidência, seu índice de aprovação nunca passou de 46% dos votos que recebeu em novembro; na semana passada, uma pesquisa de Washington Post-ABC News o mostrou com 36%.
Tais erros, porém, não explicam sua incapacidade de tirar proveito de um aumento da confiança na economia ou expandira a base de eleitores que o levou à vitória. O problema está exatamente nesta vitória — que lhe deu a Presidência, mas teve três milhões de votos menos que Hillary Clinton. O legado de tais déficits sugere que há pouco a ser feito. A história dos EUA é clara: presidentes que perderam no voto popular não recuperam apoio popular.
Os quatro presidentes anteriores que ficaram em segundo lugar na contagem de votos populares lutaram para convencer os americanos de que faziam um bom trabalho. Cada um brigou com a percepção de que a vitória foi antidemocrática e ilegítima; cada um perdeu a confiança dos partidários no Congresso e todos fizeram uma administração considerada fracassada pelos historiadores.
Apenas George W. Bush escapou desta sina, por um período. Mas seu sucesso temporário teve mais a ver com o apoio que recebeu após os atentados de 11 de Setembro do que com qualquer política que tenha implementado. E a lua de mel não durou: em boa parte de sua segunda gestão, sua aprovação ficou bem abaixo de 48%.
Os outros três presidentes que perderam no voto popular viveram e governaram no século XIX. Nenhum deles conseguiu superar seu déficit político inicial ou implementar qualquer uma de suas principais políticas. Nas eleições 1824, John Quincy Adams obteve apenas 31% dos votos populares. O que aconteceu naquela eleição nunca mais se repetiu: Adams foi apenas um de quatro candidatos, todos pertencentes ao mesmo partido, o Democrata-Republicano. Uma vez que ninguém obteve a maioria dos votos, a decisão caiu para a Câmara dos Representantes. Adams triunfou porque prometeu apoiar Henry Clay, um de seus rivais, como secretário de Estado. Andrew Jackson, cuja contagem de votos superou a de Adams, reagiu afirmando que seus rivais haviam feito “uma negociata”. Em 1828, Jackson assumiu a Presidência.
Meio século mais tarde, o presidente Rutherford B. Hayes, indicado pelos republicanos, se mostrou incapaz de escapar à sina de uma vitória controversa. Em 1876, seu rival, o democrata Samuel Tilden, venceu no voto popular, mas uma comissão do Congresso deu vitória a Hayes. Insatisfeitos, os democratas acabaram dominando o Senado e mantiveram a maioria na Câmara; o único poder de Hayes era o de veto, o que ele fez em 13 ocasiões. Em 1888, Benjamin Harrison ficou atrás do democrata Grover Cleveland, e não conseguiu implementar suas políticas, mesmo com maioria no Congresso.
Trump tem demonstrado uma relutância em alterar seu estilo de persuasão política. Se tivesse iniciado sua gestão buscando os democratas com um plano de reconstrução da infraestrutura do país, poderia ter tido a chance de dividir a oposição. Em vez disso, decidiu declarar guerra contra a burocracia federal e a mídia. Obter apoio político será uma tarefa difícil.

