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Artigo: Medidas de Trump podem não ter nada a ver com segurança

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Passageiros que seguirem para os Estados Unidos partindo de dez aeroportos em oito países de maioria muçulmana não terão permissão para levar consigo iPads, laptops ou quaisquer equipamentos de comunicação maiores que um telefone celular nos aviões. Por que os Estados Unidos estão fazendo isso e como conseguem fazer algo assim impunemente?

Os Estados Unidos afirmam que é tudo uma questão de segurança.

O governo Trump afirma que as novas regras foram introduzidas porque dados de Inteligência mostram que companhias aéreas que atuam nos Estados Unidos continuam sendo alvos de terroristas. No entanto, como sugerem Demitri Sevastopulo e Robert Wright no “Financial Times”, observadores estrangeiros duvidam dessa explicação. Talvez não tenha a ver com segurança. Três da companhias aéreas atingidas por essas medidas — Emirates, Etihad Airways e Qatar Airways — há muito tempo são acusadas por seus concorrentes americanos de receberem enormes subsídios de seus respectivos governos, e há meses temem que o presidente Trump pudesse retaliar de alguma forma. Essa pode ser a retaliação.

Essas três companhias aéreas, assim como outras atingidas pela medida, devem perder alguns de seus clientes mais lucrativos — pessoas que viajam na primeira classe e na classe executiva. Muitos daqueles na classe executiva viajam com planos de trabalhar no avião, motivo pelo qual estão preparados para pagar tarifas mais altas. Esses passageiros dificilmente se prestarão a fazer seu trabalho por meio de celulares ou aceitarão ficar sem trabalhar. Como resultado, é muito provável que troquem as companhias do Golfo Pérsico por companhias americanas.

Como o “Financial Times” aponta, a medida não afeta apenas voos diretos entrando ou saindo dos Estados Unidos — ataca os aeroportos que estão no centro de seus modelos de negócios. Essas companhias não apenas transportam passageiros diretamente da região do Golfo Pérsico para os Estados Unidos, elas também levam viajantes de diversos destinos que fazem conexões nesses aeroportos. Esse sistema é o modelo padrão para companhias aéreas de longa distância, oferecendo grandes descontos. No entanto, se concorrentes ou Estados pouco amigáveis minarem os aeroportos de conexão, o dano econômico infligido pode ser enorme.

Vivemos num mundo independente, no qual redes globais se espalham pelos países, criando enormes benefícios, mas também grandes disparidades de poder. Com o crescimento das redes, elas tendem a concentram tanto influência como vulnerabilidade em poucos locais-chave, criando enormes oportunidades para Estados, reguladores, e atores não-estatais que tenham vantagens sobre esses locais.

Nesse contexto, os Estados Unidos estão alavancando seu controle ao acesso a seus aeroportos, que são pontos centrais na rede global de viagens aéreas. Estão usando seu controle para atacar as vulnerabilidades de outros atores ligados a essas redes, atingindo os pontos centrais em suas redes (os aeroportos de conexões) e potencialmente danificando-os intensamente.

As companhias aéreas do Golfo Pérsico tentaram se defender contra os ataques políticos de competidores americanos apelando para os princípios do livre comércio. O problema é que acordos-padrão de livre comércio, como as regras da Organização Mundial do Comércio, não se aplicam de verdade às companhias aéreas.

É muito possível que o governo Trump crie mais regras unilaterais que serão justificadas usando o discurso da segurança nacional, mas que podemos perceber como manobras plausivelmente motivadas pelo protecionismo.

Henry Farrell é professor de Assuntos Internacionais e Abraham Newman, de Política Internacional na George Washington University

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