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Artigo: Mário Soares tinha opiniões fortes num país de brandos costumes

A morte de Mário Soares é uma daquelas notícias que, mesmo aguardadas, ainda assim chocam e surpreendem. Há pessoas com tanta energia, uma tal paixão pela vida, que não parece possível que a morte as leve algum dia. Soares era uma dessas pessoas.

Conheci-o no final dos anos 1980, através de Mário Pinto de Andrade, fundador do Movimento Popular para a Independência de Angola (MPLA), organização com a qual entrou anos depois em dissidência, e um dos homens mais íntegros, inteligentes e generosos com quem tive o privilégio de conviver. Até hoje tenho-o como interlocutor, isto é, penso nele enquanto escrevo meus livros. Procuro a sua aprovação.

Na época, ele era presidente de Portugal e Andrade, um quase obscuro exilado político angolano, que dependia da boa vontade de alguns amigos e antigos camaradas de luta para sobreviver. Os políticos portugueses evitavam ser vistos com Andrade, receosos de irritarem o regime angolano. Mário Soares não. Fazia questão de conversar com as diferentes correntes políticas, e sempre manifestou um particular carinho aos intelectuais da chamada Revolta Ativa, que Andrade representava. Isso explica o enorme ódio que o regime angolano sempre dedicou a Soares.

Soares era um homem de opiniões fortes, num país de “brandos costumes” — para utilizar uma expressão que os portugueses gostam muito. Dizia o que pensava, sem calcular os danos ou dividendos. Não restam hoje, em Portugal, políticos com sua coragem, desassombro e extraordinária experiência política.

Ao longo dos anos almoçamos juntos várias vezes. Não lhe faltavam casos para contar. Acho que sabia mais sobre Angola do que eu, mas ainda assim me escutava com atenção.

Portugal ficou mais pobre. Angola e o Brasil perderam um grande amigo.

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