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Artigo: Governo não é um bom negócio

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‘Uma coisa que aprendemos. Temos, de longe, o mais alto QI de qualquer ministério já reunido’. Assim, Donald Trump elogiou o brilho de seus indicados ao quadro de governo, num almoço na véspera de sua posse. Era uma de suas tradicionais hipérboles, mas talvez com um fundo de verdade. Os ricos, sendo em tudo iguais, tendem a estar no lado positivo. Outra vez, somos lembrados de John Kennedy em um jantar de ganhadores do Prêmio Nobel na Casa Branca, em 1962, saudando-os como a maior coleção de talentos reunidos naquele prédio “desde que Thomas Jefferson jantou sozinho”.

Mesmo que o QI da equipe de Trump fique aquém daquele de Jefferson, uma coisa é indiscutível: eles são o grupo mais rico jamais reunido em torno de uma mesa presidencial do gabinete, com um total de US$ 11 bilhões ou mais em riqueza líquida.

O foco de Trump nos muito ricos é a mais recente manifestação de uma crença americana imperecível de que não há nada como um grande homem de negócios para pôr o país em ordem. Seja bem-sucedido em um campo da vida e você pode ser bem-sucedido em qualquer outro. “Eu quero pessoas que fizeram uma fortuna, porque agora elas estão negociando com você”, disse Trump. “Não é diferente de um grande jogador de beisebol ou um grande golfista.” Bem, até certo ponto.

Alguns ex-empresários provaram ser estrelas no governo. Em outras épocas, grandes blocos de gabinetes, e particularmente secretários do Tesouro, costumavam ser pinçados de Wall Street e de seus escritórios de advocacia. Robert Rubin de Bill Clinton e Henry Paulson de George W. Bush — ambos, os principais executivos da Goldman Sachs — foram secretários do Tesouro competentes sob qualquer critério. Assim pode ser Steve Mnuchin, indicado de Trump para o cargo e outro discípulo de Sachs.

Muitos reagiram com surpresa à nomeação de Rex Tillerson, o CEO da ExxonMobil, como secretário de Estado, perguntando-se sobre o que saberia ele sobre diplomacia. E sua estreia na audiência do Comitê de Relações Exteriores do Senado não foi inteiramente reconfortante. Mas pense lá atrás em George Shultz, arrancado da diretoria da Bechtel, um gigante da engenharia, para ser o secretário de Estado de Ronald Reagan. Não houve melhor.

O Pentágono, no entanto, oferece alguns precedentes menos animadores. Sim, havia o “Motor” Charlie Wilson, CEO da General Motors nomeado para dirigir o Departamento de Defesa por Dwight Eisenhower, que pode ou não ter inventado a frase imortal “O que é bom para a GM é bom para a América” e que promoveu cortes no orçamento de Defesa após a Guerra da Coreia. Mas as lembranças de Donald Rumsfeld — um outro diretor-executivo colocado no comando do Pentágono por George W. Bush, apenas para sancionar a tortura e depois destruir a operação pós-invasão no Iraque — não são tão agradáveis. E é claro que houve Robert McNamara, um presidente da Ford Motors convocado para Washington por JFK. O que a América conseguiu (na verdade, não é inteiramente por sua culpa) foi a guerra do Vietnã, embora, muito antes do final de seu mandato, ele tenha percebido que era um erro.

Desta vez não existem McNamaras. Mas há Betsy DeVos, a bilionária, empresária e filantropa que Trump nomeou secretária de Educação, que em suas audiências de confirmação parecia ignorar várias questões políticas básicas, mas disse que as armas nas escolas poderiam ser justificadas em estados como Wyoming, para evitar ataques de ursos.

Infelizmente, a teoria de que tudo ficará bem se você puder governar como quem gerencia uma corporação negligencia um par de pontos. Primeiro, os acionistas particulares (os cidadãos) são um bando desregrado e cerca de metade deles quer que você falhe. Em segundo lugar, gerir uma empresa é muito diferente de governar. Os chefes corporativos estão acostumados a ter tudo à sua maneira. Dê um pedido, e ele será realizado. Contanto que você mantenha os lucros crescentes e os acionistas felizes, não há nada com que se preocupar. Governo não funciona dessa forma. Ele tem uma burocracia pesada. Para prosperar, o compromisso e a sabedoria sobre a hora de ceder terreno são essenciais. O presidente ou ministro que age como um CEO todo-poderoso será cortado mais cedo ou mais tarde.

Mas sempre que as coisas ficam difíceis para o país, os velhos anseios pelo homem de negócios resurgem. Agora a América finalmente conseguiu um deles, Donald John Trump. Esperemos que ele não seja como um outro executivo que virou presidente: Herbert Hoover.

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