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Artigo: Da ideologia política ao fanatismo religioso no terrorismo atual

Uma das consequências mais estranhas do terrorismo no início do século XXI é que ele induz à nostalgia de um certo tipo anterior de terrorismo. A substituição da ideologia política pelo fanatismo religioso corroeu os constrangimentos autoimpostos que limitavam a violência terrorista no passado.

Nos anos 1970 e 1980, as facções terroristas emitiam comunicados explicando suas agendas políticas; as demandas eram claras e os alvos, específicos e compreensíveis. Grupos terroristas — como a Facção do Exército Vermelho na Alemanha (Baader -Meinhof) e as Brigadas Vermelhas na Itália — se engajavam em atos de violência altamente seletivos. Por mais radicais ou revolucionários que fossem estes grupos na ideologia, a maioria era conservadora nas operações, usando um repertório de táticas muito limitado contra um estreito conjunto de alvos.

Naquela época, o terrorismo queria — para usar o muito citado comentário de Brian Jenkins, da RAND Corporation — “muitas pessoas assistindo, muitas pessoas ouvindo e não muitas pessoas mortas”. Agora, como vimos em Manchester, as coisas são diferentes.

Embora a identidade e os motivos do homem-bomba neste caso ainda não tenham sido revelados (o artigo foi escrito antes de a polícia identificar o autor do ataque), o que temos agora são indivíduos fanáticos (os chamados lobos solitários) e uma série de redes internacionais bastante separadas que, soltas, se reforçam mutuamente. Seus seguidores combinam crenças medievais religiosas com armas modernas e um nível de fanatismo que se expressa, primariamente, em ataques suicidas a bomba e uma vontade de usar violência indiscriminada em larga escala.

Não seria inapropriado sugerir que os terroristas islâmicos inspirariam menos apreensão pública se eles restringissem seus planos assassinos contra políticos, diplomatas, policiais, juízes e soldados. Era assim que agiam as organizações ideológicas e etnonacionalistas mais “tradicionais”, que dominavam a cena terrorista entre os anos 1960 e 1990.

A ameaça do terror indiscriminado permanecerá conosco por algum tempo. Isso torna ainda mais importante lidar com as causas deste tipo de terrorismo, em vez de só tentarmos nos defender dele.

Desde o 11 de Setembro, as polícias do Ocidente focaram seu trabalho em capturar ou matar jihadistas, em vez de tentar solucionar o que os motiva e o porquê de algumas comunidades os apoiarem, apesar dos seus chocantes atos de terror.

Extremistas políticos tendem a imitar uns aos outros. Após os ataques contra Paris e Berlim, a questão para o Reino Unido se tornou mais um “quando” do que um “se” haveria um tipo semelhante de ataque destrutivo e indiscriminado.

Um ataque terrorista como este é o mais difícil de interromper, e mais ainda de prevenir. Mas é importante lembrar todos os ataques que nunca se materializaram por causa da vigilância e das estratégias de prevenção das forças britânicas de combate ao terror. O ataque de anteontem a Manchester traumatizou a todos nós no Reino Unido, mas não devemos permitir que isso nos envenene e nos divida.

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