O que ele disse? Somos independentes ou não? Os questionamentos revelam a confusão produzida pela independência ao contrário de Puigdemont em meio a seu próprio rebanho. E descrevem a incredulidade da multidão ufanista que se reuniu para celebrar a proclamação da República Catalã como se fosse uma orgia. A proclamação existiu, quase como uma ilusão, mas quase ao mesmo tempo foi congelada, de tal maneira que a garotada independentista não foi capaz de saborear o orgasmo.
Assim se apresentou a influência tragicômica que a obsessão escocesa teve sobre Puigdemont. Pois o histórico 10 de outubro terminou como uma ducha de água fria, com o presidente catalão inflamando o povo com uma dose de Viagra e depois o traumatizando, de tal forma que a população não sabia se celebrava a notícia ou se a lamentava, um sentimento amplificado ainda mais com a passividade dos membros da CUP, que demonstrava que o discurso do presidente carecia do ardor secessionista, e que o atraso de uma hora em seu pronunciamento era fruto de um racha na sagrada família independentista.
Não, não era um bom sinal que Carles Puigdemont tivesse chegado ao Parlamento todo vestido de preto, como um coveiro do Velho Oeste. E sua indumentária havia sido bem escolhida porque o presidente vinha para comandar, com atraso, o funeral da democracia.
Não há melhor maneira de fazer isso do que a interpretação sob medida de um resultado eleitoral. Não contente em ter cometido fraude eleitoral, Carles Puigdemont adicionou ao fervor independentista as cédulas daqueles que “não puderam” votar por terem tido seus direitos restringidos pela feroz polícia espanhola. Seria o fundamento plebiscitário maciço a partir do qual o simulacro desta independência anorgásmica poderia ser proclamado. Puigdemont alcançou-o através da “aclamação popular”, imitando assim um antigo procedimento de designação pontifícia. Um Papa é atualmente escolhido pela monarquia eletiva — o Sacro Colégio dos Cardeais — mas no passado, nas eras das trevas, era proclamado pelo fervor da atmosfera. Puigdemont o imitou em proporção à sua ilusão providencialista. E cercou o Parlamento de seus próprios “voluntários” para provar isso, embora a multidão convocada no perímetro do Parlamento estivesse muito desapontada com a ambiguidade da proclamação. Podemos celebrar a festa ou temos que esperar?
Puigdemont anunciava ambiguamente a independência e suspendia, ao mesmo tempo, qualquer derivação prática ou jurídica ou política. Era, talvez, a maneira de escapar do precipício do Código Penal. E de assumir sua devoção à cultura democrata-cristã. Porque ele nunca deixou de ser um coroinha, e porque a melhor maneira de sair de seu próprio labirinto era se apegar ao artefato dialético que Aldo Moro inventou: há o sim e há o não, mas no meio há o “nim”.
Puigdemont disse “nim” à independência. O governo espanhol sustenta que ela foi proclamada de forma inequívoca, mas a desorientação do rebanho soberano traz à simulação toda a ferocidade tragicômica. O que Rajoy pode fazer então? Aplicar o Artigo 155 e não aplicá-lo ao mesmo tempo.

