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Armas dos EUA alimentam violência ao sul da fronteira

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WASHINGTON - Donald Trump não esconde que deseja construir o muro na fronteira com o México para livrar os Estados Unidos dos bad hombres, mas a realidade mostra que a ameaça é uma via de mão dupla e que, com o republicano, a situação pode piorar para os mexicanos. Especialistas alertam que, com a chegada do magnata à Casa Branca, o envio de armas — de forma legal e ilegal — tende a aumentar e pode agravar a violência no país, que se aproxima do recorde registrado em 2011. A intensificação da guerra às drogas e a política exportadora de armas sem um bom controle do destino do armamento, incentivada por grandes doadores da campanha do presidente, devem recrudescer a situação no país latino.

Dados oficiais e compilados pela ONG Semáforo Delictivo indicam que, em 2016, foram registrados 20.792 homicídios. Nos primeiros quatro meses do ano, já foram contabilizados 7.752 assassinatos, alta de 30,2% sobre o mesmo período de 2016. Assim, dizem, o país caminha para bater o ano de 2011, quando foram registrados 27.199 assassinatos. E a relação com o vizinho do Norte tem influência direta com isso, dizem os especialistas.

John Lindsay-Poland, coordenador do escritório de São Francisco do American Friends Service Comittee (AFSC), afirma que, de 2012 a 2016, os EUA exportaram US$ 208 milhões legalmente em armas para o México:

— Grande parte do armamento vai para governos locais de áreas dominadas pelo tráfico e pelas gangues, o que torna o desvio deste material, sobretudo munição, mais fácil.

E, segundo ele, este número tende a crescer: empresas armamentistas, que defendem abertamente o aumento da exportação, como a Sig Sauer, doaram dinheiro para a campanha do republicano à Casa Branca. Ele teme que isso signifique que haverá mais pressão para ampliar as facilidades no acesso às armas.

— O governo não tem controle algum depois que a arma ou a munição é exportada. A venda dos EUA para o México é pouco transparente e tende a ficar cada vez menos com Trump — disse ao GLOBO. — Cada vez que se aumenta a venda de armas dos EUA, amplia-se a violência no México.

Manuel Hernández Borbolla, repórter especializado em segurança da versão mexicana do “Huffington Post”, informou que a fabricante Sig Sauer contratou em janeiro Bob Grand, sócio do vice-presidente americano, Mike Pence, para incrementar as exportações de sua empresa. Um sinal de que as coisas podem piorar no México.

— Vemos a violência voltando com força, e não há sinais de que isso vá melhorar a curto prazo. Este deve ser, junto com a relação com os EUA, o grande tema das eleições presidenciais de 2018 — afirmou.

Estima-se que, atualmente, existam 15 milhões de armas ilegais no México, 70% delas compradas nos EUA. E, embora à primeira vista a construção do muro possa indicar a resolução do problema, especialistas temem o contrário:

— As tensões, que podem aumentar com a construção do muro, devem ampliar o distanciamento entre México e EUA, e isso pode afetar cooperações na área de segurança, ou seja, facilitar o acesso de armas ilegais pela fronteira — destacou Sarah Kinosian, especialista em segurança da Advocacy for Human Rights in the Americas (Wola).

Santiago Roel, fundador e diretor do Semáforo Delictivo, acredita que a situação tende a piorar com o governo Trump, que deve recrudescer a guerra contra as drogas, com fortes impactos para os mexicanos:

— O México aceitou o papel de ser o grande bode expiatório. Tenta-se ampliar o uso da força para combater algo que atende às regras de mercado. Como os EUA, quer combater as drogas sufocando apenas a oferta, sem tentar resolver seu problema de demanda.

Segundo Roel, cresce no México um debate para uma visão diferente do problema, que passa por uma regulamentação das drogas. Ele lembra que, quando o então presidente Felipe Calderón iniciou a guerra contra as drogas, em 2007, a taxa de homicídio triplicou em três anos.

O especialista afirma que sete em cada dez homicídios no país estão relacionados com o crime organizado e o tráfico de drogas, embora em alguns estados chegue perto de 90%. Em sua opinião, o problema se assemelha ao do Brasil e da Colômbia e, para ele, a América Latina tem condições de encontrar seu caminho para a paz. Para isso, no entanto, é necessário convencer a opinião pública de que a regulamentação é mais eficiente que o combate:

— No México, apenas 30% das pessoas concordam com a liberação do uso da maconha. Nossos países sequer regulamentaram a maconha medicinal, algo que já está pacificado nos países avançados.

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