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Após retomar Mossul, Iraque se vê frente ao desafio da reconstrução

MOSSUL — Com a celebração de vitória na luta para reconquistar a histórica e icônica Mossul, as tropas iraquianas abriram ontem uma nova fase de perigosos desafios ainda sem solução para o seu país. Aquela que já foi a segunda mais importante cidade do Iraque foi, finalmente, após nove meses de campanha militar, declarada libertada das mãos do Estado Islâmico (EI) pelo premier Haider al-Abadi, embora não o tenha feito formalmente. Mas a conquista está longe de significar vida pacífica imediata. Enquanto ainda há alguns focos de resistência jihadista, os vencedores da batalha veem adiante uma fileira de problemas — possivelmente tão grande quanto uma derrota teria trazido. Resta, agora, reconstruir uma cidade devastada pela guerra, após um período de profundo trauma para os seus moradores. Além disso, a derrota do grupo extremista põe fim ao objetivo comum que mantinha coesos os fragmentados grupos étnicos e sectários num país em convulsão, arriscando formar novas frentes de confronto.

O governo iraquiano provavelmente precisará de ajuda financeira para a reconstrução de Mossul. Os custos, segundo as Nações Unidas, deverão superar US$ 1 bilhão. E até mesmo as poucas áreas ainda de pé exigirão esforços demorados para desativar possíveis bombas deixadas como armadilhas por jihadistas. Sob o domínio do EI desde 2014, a cidade tornou-se um símbolo cruel de caos e sofrimento para os civis, enquanto a ofensiva iraquiana, apoiada pelos bombardeios aéreos da coalizão liderada pelos EUA, reduziu boa parte das suas ruas a pilhas de escombros. Diversas estruturas, de bibliotecas a mesquitas, foram também destruídas pelo EI. Enquanto isso, eclodiu uma severa crise humanitária, marcada pela fuga de quase meio milhão de civis, segundo as Nações Unidas — dos quais cerca de 900 mil, quase metade da população local do pré-guerra, continuam deslocados no Iraque.

Ontem, o premier al-Abadi foi à cidade e cumprimentou as tropas iraquianas, que finalmente chegaram às margens do Rio Tigre após semanas de intensos combates.

“O comandante em chefe das Forças Armadas chegou à cidade libertada de Mossul e congratulou os heroicos combatentes e o povo iraquiano pela grande vitória”, disse um comunicado de seu gabinete.

PRESSÁGIOS DE CONFLITO JÁ BATEM À PORTA

Houve celebração nas ruas da cidade e de Bagdá após o anúncio, mas a declaração oficial de vitória só virá quando os últimos bastiões de resistência jihadista acabarem — ainda foram ouvidos tiros e alguns bombardeios ontem. Desde fevereiro, as tropas de Bagdá tentavam recuperar a zona Oeste de Mossul, logo após a retomada do Leste, na outra margem do rio. A dolorosa guerra, na cidade controlada pelo EI desde 2014, acabou por dilatar divisões, que dificultam a tão aguardada paz.

O fim da árdua luta para recuperar Mossul pode dissolver a frágil união composta por diferentes grupos rivais contra os extremistas. Para analistas, o momento é um potencial gatilho para novos episódios de violência entre árabes e curdos na luta por territórios; e, ainda, entre sunitas e xiitas pelo poder, uma disputa potencializada desde que a invasão do Iraque em 2003 derrubou o governo sunita de Saddam Hussein e levou ao poder a maioria xiita. Ao mesmo tempo, no pano de fundo, faz crescer a tensão entre Irã e Turquia, que são duas fortes potências regionais.

A primeira indicação de possível conflito já chegou. O presidente da região autônoma do Curdistão iraquiano, Masoud Barzani, anunciou um referendo para votar a criação de um Estado independente em 25 de setembro. A iniciativa chegou a inspirar sunitas a também discutirem sua potencial separação. Alguns líderes sunitas e curdos acreditam que a solução seria tornar Mossul uma região autônoma, como o Curdistão, com unidades menores para acomodar sua infinidade de minorias. As autoridades que defendem a ideia dizem que todo o plano para costurar os retalhos territoriais é permitido pela Constituição.

Outro presságio de novos conflitos também veio das milícias xiitas apoiadas pelo Irã, que pressionam para se instalar ao longo de áreas curdas e avançar em direção à fronteira da Síria. Os grupos são motivados pelo desejo iraniano de estabelecer um corredor de Teerã a Beirute.

Autoridades ocidentais, iraquianas e curdas vêm se dizendo atônitas diante da falta de um plano pós-guerra de governo e segurança no Iraque. Os relatos são de que nunca houve uma reunião formal entre representantes curdos, iraquianos e da coalizão liderada por Washington para discutir qual seria o destino de Mossul após a batalha. À Reuters, Hoshyar Zebari, ex-ministro da Fazenda, acusou al-Abadi, xiita moderado, de negligência por ter se recusado a até mesmo discutir o planejamento da cidade destruída.

— Estamos de volta à situação de antes da queda de Mossul (para o EI), porque há uma ideia na liderança xiita linha-dura de deixar as áreas liberadas soltas, sem liderança política local ou organizações de segurança, para que possa controlá-las — disse, por sua vez, Atheel al-Nujaifi, governador sunita da província de Nínive quando Mossul caiu nas mãos do EI.

Ao mesmo tempo, líderes sunitas e curdos preveem que o vácuo político poderá facilitar o reagrupamento de radicais na região. Para os jihadistas, a perda de Mossul, sua capital administrativa no Iraque, é um revés muito expressivo. Mas especialistas dizem que não é um golpe fatal: a derrota debilita o califado, porém ainda está bem longe o momento de falar em vitória total contra o Estado Islâmico.

— A curto prazo, o EI vai passar ao terrorismo e à insurreição, no lugar de tentar controlar regiões abertamente grandes — diz David Witty, analista e coronel aposentado de forças especiais dos EUA. — O Iraque provavelmente será vítima da insegurança ainda por muitos anos.

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