HAVANA — Yusimi Villar, enfermeira de 45 anos, vive uma rotina com a qual não estava acostumada: percorrer farmácias e hospitais atrás de Valproato de Magnésio, a medicação que impede que Jorge, seu filho de 12 anos com a rara síndrome de West, tenha convulsões. O medicamento é fornecido gratuitamente pelo governo cubano, mas está cada vez mais difícil de ser obtido na região de Havana, onde vive.
— Antes tinha para todos. Agora, se há três pessoas que precisam deste medicamento, o governo só fornece dois. Daí preciso ficar buscando alternativos ou no mercado paralelo — disse. — Meu filho não sobrevive sem isso.
A falta de medicamentos é um dos mais visíveis problemas sociais que se intensificaram em Cuba nos últimos anos. Os defensores da ditadura castrista — que começou em 1959 com a revolução socialista e viveu na semana passada uma troca de poder, com a saída de Raúl Castro da Presidência e a chegada de Miguel Díaz-Canel — sempre advogaram que a educação e a saúde cubanas estavam entre as melhores do mundo. Para muitos, isso compensaria a falta de liberdade e de representação política. Mas, nos últimos anos, as duas principais vitrines do socialismo caribenho começaram a se deteriorar, ampliando as tensões sociais.
A percepção de que a repressão aumentou nos últimos dois anos (após um período de euforia com a reaproximação com os EUA) e a ideia de que os serviços públicos ainda são melhores do que na maior parte dos países do continente fazem com que poucos falem mal abertamente sobre os dois temas. Mas diversos casos indicam que os dois fatores de orgulho da ilha estão enfrentando uma queda de qualidade que não foi vista nem mesmo no chamado “período especial”, nos anos 1990, quando os cubanos enfrentaram uma forte recessão após o colapso da União Soviética, grande provedora do regime então comandado por Fidel Castro.
Yusimi não critica a qualidade dos médicos cubanos e nem os hospitais de Havana. Os números continuam melhores do que os brasileiros nos dois setores e também superam a maior parte das nações da América Latina — perdendo em alguns poucos quesitos para Chile, Costa Rica e Uruguai. Mas afirma que a crise econômica é cada vez mais sentida na saúde:
— Antes, este medicamento era feito em Cuba. Agora é importado — disse ela, segurando uma caixa do remédio, cujo nome comercial é Depakin. — Acredito que isso tenha a ver com o embargo (americano).
A enfermeira já se adaptou, também, a levar lençóis e outros insumos para hospitais quando o filho é internado. Essa realidade foi assimilada pelos cubanos, em outro sinal da deterioração da saúde pública. Mas, segundo o clínico geral Osvaldo Torres, que passou os últimos dois anos em Genipabu, no Rio Grande do Norte, na saúde básica a situação do país ainda é melhor do que a brasileira.
— Quando fui para o Mais Médicos, enfrentei doenças que nunca havia tratado em quase 30 anos de medicina em Cuba, como sífilis em recém-nascido, tuberculose não associada ao HIV e esquistossomose — afirmou Torres, que voltará ao Brasil na próxima semana. — O triste é que grande parte dessas doenças seria resolvida com prevenção.
Ele conta que o SUS brasileiro, no papel, é muito melhor que o cubano. Mas problemas administrativos e corrupção no Brasil fazem com que os cubanos tenham uma saúde melhor.
— O envio de médicos para outros países não afeta a saúde cubana. Antes, quando eu era Médico de Família, cuidava de uma população de 724 pessoas. Hoje, meus colegas em Cuba cuidam de mil. Mesmo assim, é melhor do que todos os países latinos, é algo administrável.
Na educação, contudo, essa não é a realidade. A falta de professores coloca em xeque o ensino público cubano. A meta do governo, de ter no máximo 20 alunos por professor, foi abandonada há tempos. O país hoje tem um déficit de 16 mil docentes. Segundo levantamento do “El Nuevo Herald” (jornal de Miami publicado em espanhol) — baseado em dados oficiais —, 40 mil profissionais trocaram, na última década, o magistério por carreiras mais rentáveis, principalmente na área de turismo, onde se obtém o CUC, a moeda atrelada ao dólar.
— A educação em Cuba era para ser em período integral, mas cada vez mais vemos crianças nas ruas no período da tarde. O governo chegou a tentar implementar o sistema de “professores integrais” para o secundário (entre os 7º e 9º anos, onde um único professor ensinaria todas as matérias), mas teve que voltar atrás — contou uma professora que, por temor de perseguição, pediu para não ser identificada.
Pior que isso, segundo diversos cubanos, é que a corrupção começa a crescer nos dois setores.
— O povo cubano é honrado, mas não consegue viver com o que ganha. Sempre se pode ter um melhor tratamento no hospital, comprar um material escolar que era para ser gratuito, mas que está faltando, com dinheiro — afirmou um morador de Playa, no oeste da capital. — Meu medo é que isso seja institucionalizado pela população. Não vamos perder apenas nossa condição de vida, mas nossa hombridade.

