Neste domingo, Evo anunciou, em Buenos Aires, que o candidato de seu partido, o MAS (Movimento ao Socialismo) nas eleições de 3 de maio será o ex-ministro da Economia, Luis Arce, com o ex-chanceler David Choquehuanca na vice-presidencia.
"Evo Morales não deveria estar comandando, de Buenos Aires, a campanha do MAS. Ele está na Argentina como refugiado, e essa atitude viola claramente o espírito do direito ao asilo e ao refúgio", disse Áñez, 52, em entrevista à Folha de S.Paulo.
"O ex-presidente não deveria estar participando do processo político na Bolívia nem dando declarações e fazendo reuniões sobre isso em seu país de refúgio", diz.
"Outros países nos têm apoiado e esperamos uma resposta mais contundente. Todas as democracias deveriam protestar sobre a maneira como a Argentina está violando uma instituição do direito internacional", acrescenta.
Añez chegou ao poder de forma contestada em novembro -como 2ª vice-presidente do Senado, foi considerada a pessoa seguinte na linha sucessória da Presidência, depois que várias autoridades renunciaram. Porém, não teve a aprovação da maioria do Congresso, que tampouco sancionou o pedido de renúncia de Evo, ambos requisitos previstos pela Constituição.
Ainda assim, vem conduzindo o país com mão de ferro. As ruas das principais cidades estão militarizadas e tem havido confrontos, mortes e detenções, principalmente em La Paz e em Cochabamba.
Apesar de terem ocorrido mais de 30 mortes na repressão dos protestos de apoiadores de Evo, Áñez diz que o processo eleitoral será pacífico e democrático, uma vez que "os órgãos eleitorais estão reorganizados e trabalham de modo coordenado. Todos os setores políticos irão participar".
A presidente interina é criticada por colocar muito foco na segurança e pouco na economia. "Sabemos que foram feitos gastos abusivos pelo ex-presidente em muitas áreas, e houve uma gestão equivocada dos recursos, além de termos detectado muita corrupção. A Bolívia teve 14 anos de crescimento do PIB, mas mesmo assim não resolveu a pobreza."
Segundo Áñez, que não será candidata na eleição de 3 de maio, a prioridade agora é reduzir o déficit fiscal e ajustar os gastos "que não são necessários. Mesmo assim, não vamos eliminar nenhuma assistência aos que mais precisam. Temos problemas graves também na saúde e de desemprego, deixados pela gestão anterior".
Candidato apontado pelo MAS, Arce comandou a economia da Bolívia até 2017. Na última década, o país cresceu, em média, 4% ao ano.
Arce, que tem bom diálogo com a classe média, deixou o governo por questões de saúde. Hoje, se diz recuperado. Ele tem enfrenta resistência de alguns setores do MAS, porém é de inteira confiança de Evo.
O candidato a vice, Choquehuanca, é um indígena aimara, que aprendeu a falar espanhol aos 7 anos e tem apoio muito grande entre as comunidades do altiplano boliviano. Foi chanceler de 2006 a 2017.
Além de Arce, estão confirmadas as candidaturas do ex-presidente Carlos Mesa (centro-esquerda), que teria perdido para Evo na eleição de 20 de outubro, anulada por irregularidades, o também ex-presidente Jorge Quiroga (direita), o líder do movimento cívico de Santa Cruz de la Sierra, Luis Fernando Camacho (direita) e o pastor evangélico Chi Hyun Chung.
