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Análise: Trump tenta impor nova ordem mundial

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WASHINGTON - A primeira semana do governo de Donald Trump foi marcada por medidas que tendem a tornar o país mais fechado, isolado e controverso. Seus atos representam uma ruptura de décadas de política externa americana. Os impactos deste novo posicionamento definido pelo presidente têm o potencial de alterar o atual equilíbrio global, com os EUA perdendo espaço e a China conquistando mais influência, sobretudo na economia e no comércio.

Não faltam exemplos desta nova direção. O mais notório é o forte embate com o México, com Trump ameaçando o vizinho e tratando os imigrantes como criminosos. A nova embaixadora americana na ONU quer reformular a entidade e prometeu “pagar com a mesma moeda” a quem se opuser aos planos de Washington. E ainda há uma aproximação complicada com a Rússia, adversária histórica, acusada de ter interferido nas eleições americanas justamente para favorecer Trump.

Além disso, Trump fez a defesa da tortura como método de interrogatório; retirou os EUA do maior acordo de livre comércio do planeta (a Parceria Transpacífica, TPP na sigla em inglês); fez silêncio em relação aos novos assentamentos israelenses nos territórios palestinos; suspendeu temporariamente o acolhimento de refugiados e restringiu a entrada de cidadãos de alguns países muçulmanos. Isso sem contar que tinha se intrometido em questões internas da Europa antes da posse, sendo repreendido por muitos líderes do Velho Continente.

— Estes anúncios e medidas vão contra o que o país defende desde o fim da Segunda Guerra Mundial. No caso das medidas contrárias ao livre comércio, é uma postura que muda o posicionamento adotado pelo país na década de 1820 — disse Erick Langer, professor de História da Georgetown University, em Washington.

A “National Review”, principal publicação conservadora do país, criticou a linha de ataque adotada por Trump em seu discurso de posse. O presidente disse que os EUA estão perdendo com a globalização, que tanto defenderam e da qual se beneficiaram. “A riqueza de nossa classe média foi arrancada de suas casas e depois redistribuída em todo o mundo”, disse o magnata, contrariando os dados econômicos. A publicação destaca que Trump não fez distinção entre amigos e inimigos no discurso, ao tratar de política externa, e, em nenhum momento, fez “referência à liberdade”.

“O soft power (influência baseada na inspiração e no diálogo, que se contrapõe ao poder militar ou à coerção) acumulado pelos EUA ao longo de décadas acabou em 17 minutos”, escreveu a “Economist” sobre o discurso. “O problema para os outros países, talvez mais ainda para os aliados tradicionais que para os adversários, é que Trump não pode ser ignorado. Washington é o ponto de referência para a política externa de todos os outros países”, alertou a revista britânica, citando que a crise com o México é uma advertência aos velhos amigos americanos.

Michael Shifter, presidente do Inter-American Dialogue, crê que alguns países já aproveitam o novo foco interno dos EUA:

— O governo de Israel agora tem mais liberdade, sem a pressão americana — afirmou, citando a autorização à ampliação de assentamentos na semana passada nos territórios palestinos. — Para outras nações pode ocorrer o mesmo.

Shifter, porém, crê que ainda é cedo para saber qual será o impacto a longo prazo. E lembra que ainda há muita improvisação nas políticas de Trump, o que dificulta prognósticos:

— Estamos no começo do drama, de uma novela que terá vários capítulos. Temos que ver como serão as reações da sociedade, da classe política e dos outros países a estas políticas.

As incertezas se ampliam, pois o novo secretário de Estado, Rex Tillerson, ainda não foi aprovado pelo Senado — seu nome passou com apenas um voto de diferença na Comissão de Relações Exteriores da Casa na segunda-feira. Há possibilidade de que ele seja rejeitado, devido a seu histórico de proximidade com a Rússia: Vladimir Putin já lhe deu uma condecoração, a Ordem da Amizade, quando ele era presidente da ExxonMobil, empresa que tinha interesses em negócios de US$ 500 bilhões com Moscou.

A briga com o México, devido à política para barrar imigrantes ilegais, à construção do muro e à ameaça de sobretaxar as exportações do país em 20%, gerou reações em toda a América Latina. Após décadas sendo tachados de imperialistas, os EUA estavam começando a melhorar sua imagem no governo de Barack Obama, graças à reaproximação com Cuba. Este avanço, porém, está se invertendo.

Mas o maior dano efetivo pode ser na Ásia. Ao sair da TPP (formada por EUA, Japão, Austrália, Brunei, Canadá, Chile, Malásia, México, Nova Zelândia, Peru, Cingapura e Vietnã), Trump pode ter empurrado uma importante fatia do comércio global — e da influência americana — para o colo de Pequim. A China pretende atrair estes países para a Parceria Econômica Regional Ampla (Rcep), acordo que reúne 15 países de Ásia e Oceania, sem os EUA.

— A morte da TPP e o aumento do Rcep ao mesmo tempo impedirão a criação de novos empregos americanos, por exemplo, em agricultura, na área de produtos farmacêuticos e alta tecnologia. Portanto, vai contra os objetivos declarados pelo próprio Trump, devido ao acesso mais difícil ao mercado asiático — disse ao GLOBO Linda Lim, professora da Ross School of Business da Universidade de Michigan.

Alan Deardorff, seu colega na Escola de Política Pública da Universidade de Michigan, vai além:

— A China já indicou sua disposição para preencher a lacuna deixada pelos EUA, e tenho certeza de que a maioria dos países asiáticos estará ansiosa para seguir essa liderança.

Langer, da Georgetown University, pondera que a falta de democracia e liberdade pode limitar a ação chinesa.

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