WASHINGTON — A espiral de escândalos que o governo Donald Trump está vivendo desde que decidiu demitir o diretor do FBI escancara um grave problema de governabilidade, com consequências imprevisíveis. Mas, mesmo sem a clareza sobre o desfecho da trama política americana, algo parece estar certo: Trump está perdendo a guerra da comunicação. Pela primeira vez desde que se lançou candidato o magnata vê sua estratégia de apelar para a polêmica e para cortinas de fumaça sem eficacia.
Encurralado, Trump reagia de maneira semelhante: desacreditava os fatos, atacava seus opositores, intensificava mais ainda o politicamente incorreto que choca metade dos EUA e quase a totalidade do mundo e apela para novos temas polêmicos para criar novas narrativas. A estratégia do "gato morto sobre a mesa", ou colocar a cada dia um bode diferente na sala, deu resultados e ajudou Trump a controlar o ciclo da notícia, ponto crucial de sua vitória.
No momento mais pressionado de sua campanha, quando vídeos mostrava seu comportamento chulo com mulheres - algo que não seria aceito por ninguém, mas que ele conseguiu se safar mesmo entre o eleitorado mais religioso e puritano - Trump jogou todos na vala comum, levando mulheres que acusavam Bill Clinton de assédio a um debate presidencial. No começo do governo, quando a nebulosa relação de sua campanha com a Rússia começava a cobrar parte do parco capital político do presidente eleito sem a maioria do voto popular, Trump acusou Barack Obama de espionagem e levantou severas dúvidas sobre o sistema eleitoral que o elegeu. Exemplos não faltam.
Mas agora não adiantou o morador da Casa Branca ter escalado Jef Sessions para anunciar um forte recrudescimento da guerra contra as drogas: o debate nacional seguiu monopolizado pelas suspeitas, cada vez mais aceita pela maioria dos americanos, das relações espúrias entre o magnata e o Kremlin. Ao mexer com questões sagradas como estar subserviente aos russos, afetar a credibilidade e a independência do FBI e fazer a Casa Branca mentir de forma contumaz, Trump pode ter dado m passo grande demais até para ele, raro caso de "teflon" político, visto que foi eleito rasgando todos os manuais eleitorais.
Se o governo Trump já estava marcado pela falta de ambição em promover sua agenda, agora está totalmente paralisado pelos fatos. Trump se mostra cada vez mais enfraquecido. Os republicanos sabem disso e esperam o momento certo para abocanhar o governo de alguém que nunca compartilhou realmente de seus ideias conservadores, o que pode gerar ainda mais problemas para a Casa Branca. Ao que parece, fica cada vez mais difícil resolver as coisas com simples tuítes.

