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Análise: Aprendendo só com o pior

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BUENOS AIRES— Desde fevereiro de 2012, quando um acidente ferroviário matou 51 pessoas na estação Once, uma das mais movimentadas de Buenos Aires, os argentinos não se comoviam com um drama de grande magnitude. Muitas vezes as tragédias humanas unem e, no caso do ARA San Juan, foi exatamente o que aconteceu. Familiares das vítimas de Once expressaram através das redes sociais sua solidariedade com os parentes dos 44 tripulantes do submarino e se colocaram à sua disposição. A sensação predominante, mais uma vez, é de que foi necessária a morte de inocentes para despertar a consciência do Estado argentino sobre uma situação crítica. Nas palavras de Paolo Menghini, pai de Lucas, um dos mortos na estação de Once quando tinha apenas 20 anos, “a Argentina aprende a base de mortes, que é a pior maneira de aprender”.

Antes do acidente ferroviário, um incêndio matou 194 jovens na casa de shows Cromañón, em 2004. Ambas as tragédias obrigaram autoridades locais a modificarem normas. No caso dos trens, renovar infraestrutura que notava-se a léguas que era obsoleta.

— As queixas pelo estado dos vagões eram permanentes, mas o então governo de Cristina Kirchner (2007-2015) optou por não fazer nada. Depois do acidente, retirou a concessão da empresa privada que controlava os trens e comprou novos vagões — contou Paolo.

O caso foi parar nos tribunais. Num primeiro julgamento, encerrado em 2015, 21 pessoas foram condenadas por “estrago culposo e administração fraudulenta”, entre elas o ex-secretário de Transporte Ricardo Jaime. No recém-iniciado segundo julgamento, o principal acusado é o ex-ministro do Planejamento Julio De Vido, preso recentemente por corrupção.

— Tudo o que aconteceu em Once foi escandaloso. Meu filho foi achado depois de 60 horas de busca, e por isso três chefes da operação de resgate são processados.

A tragédia de Once permitiu revelar o tamanho da corrupção envolvendo o ministério. No julgamento, estimou-se um desvio de cerca de US$ 1 bilhão que deveria ter sido usado para renovar equipamento.

O Estado reagiria, mas de maneira quase obscena. O governo adquiriu vagões novos, que se transformariam em campanha eleitoral pouco tempo depois.

— Foi um segundo golpe às famílias, duríssimo — criticou Paolo.

Hoje, Cristina, perguntada pela tragédia de Once, culpa o condutor do trem. A sentença de 2015? Ignora.

Em 2004, a tragédia de Cromañón obrigou as autoridades de Buenos Aires a reverem o funcionamento de boates e casas de show. O incêndio, provocado pela utilização de bengalas luminosas num lugar que tinha suas portas trancadas com cadeado e com três vezes mais pessoas do que o limite, foi incontrolável e causou a asfixia letal de 194 jovens que estavam assistindo a um show do grupo Callejeros. O caso também foi parar na Justiça, e várias pessoas foram condenadas — entre elas vários músicos, que estimularam o uso das bengalas e permitiram o excesso de público.

A reação do governo portenho foi rápida mas, novamente, foram necessárias muitas mortes para regulamentar questões básicas como a obrigatoriedade de sinalizar saídas de emergência e limitar o número de pessoas que podem entrar numa boate.

— Com o caso do submarino, Macri tem a possibilidade de fazer uma grande mudança nas Forças Armadas, mas não está claro se o fará — opinou o analista político Sérgio Berezntein.

Para ele, “tudo dependerá da vontade política do presidente”.

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