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Americanos se dividem entre críticas e admiração ao governo Obama

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WASHINGTON - Em Washington, o governo de Barack Obama deixará saudades. Pudera: poucos locais são tão progressistas nos Estados Unidos como sua capital. Mas, mesmo na cidade, ele é visto com algumas ressalvas. Muitos dizem que o presidente não fez tudo o que podia. O saldo, no entanto, é majoritariamente positivo e, em muitos casos, a aprovação se confunde com admiração.

— Ele abriu a porta para nós — afirma o comerciário negro Milton Glenn, de 45 anos. — Termina sem escândalo de corrupção, agiu com respeito. Fez coisas boas. Poderia ter feito mais? Sim, mas avançamos.

Glenn diz que Obama ajudou a dar uma nova perspectiva para os negros. Ele acredita que o presidente deixa “boas sementes” de mudanças e que a nova geração deve encarar a situação racial de outra forma, com muito menos preconceito.

Sheila Minner, de 57 anos, se apresenta como um símbolo do seu sucesso: negra, perdeu o emprego em uma escola na crise econômica de 2008 e só voltou ao mercado de trabalho nas grandes frentes que Obama abriu no governo federal.

— Não gosto quando dizem que ele apenas deu cupons de alimentação. Ele deu empregos e oportunidades aos mais pobres e à classe média — diz ela. — Temo que Donald Trump administre pensando apenas nos ricos.

O censo aponta que 48% da população da cidade é formada por negros, percentual quatro vezes superior à média nacional. A imensa maioria é democrata. Mas, mesmo no grupo, há críticas a Obama:

— Ele não fez tudo o que podia. Um dos exemplos é na habitação. Muita gente que perdeu a casa com a crise de 2008 continua morando de forma precária. E não avançou tanto na reforma do sistema penal — afirma o jovem Reon Walker, de 19 anos, trabalhador da construção civil, que por outro lado elogia a principal vitrine do presidente, o Obamacare: — Conheço muitos velhinhos que só têm acesso à saúde por isso.

A avaliação do mandato parece ser bem dividida entre os grupos da cidade onde ele continuará morando após sair da Casa Branca — em um ato raro, não voltará para Chicago, sua base política, ou para o Havaí, onde nasceu, por causa dos estudos da filha mais nova. Os negros o apoiam de forma mais aberta. Brancos, em geral, veem pontos positivos, mas carregam nas críticas. E os latinos, que viveram uma relação de amor e ódio com o governo nos últimos oito anos, estão mais preocupados com o futuro.

Ivania Martinez, descendente de salvadorenhos de 19 anos, reconhece avanços. A faxineira diz que no governo de Obama ela e seus amigos tiveram mais voz e puderam ter mais direitos. Ela se refere, principalmente, às políticas que facilitaram a legalização de alguns grupos, as crianças filhas de imigrantes ilegais:

— Meu povo ficou de cabeça erguida, teve mais respeito!

Mas Rosalia Hernandez, de 38 anos, avalia de forma diferente. Nascida em El Salvador, mora há dez anos nos EUA como imigrante ilegal. Mesmo com um filho de 4 anos, nascido no país, tem muita dificuldade em se legalizar.

— Vemos muita gente sendo deportada. Ele deportou mais imigrantes que qualquer outro presidente — diz ela. — O que mais nos assusta é que a situação deve piorar com Trump.

Entre a população branca da capital americana, a maior parte tem uma visão positiva, mas também muitas críticas. Lisa Fischer, diretora de projetos de 48 anos, acredita que sua vida não mudou muito, mas acredita que o país melhorou. Entretanto, critica a falta de ação do presidente para evitar os problemas na Síria.

Já Rose, uma americana que pediu para não dar o sobrenome para não prejudicar o filho militar, melhorou a avaliação de Obama após a eleição de Trump. Ela salienta que foi boa a redução das atividades militares no exterior — quando ele assumiu, eram 180 mil soldados no Afeganistão e no Iraque, agora está em menos de 10% disso:

— Meu filho conta que ele e os colegas já estão se preparando psicologicamente para voltar à guerra. É tudo o que uma mãe não quer — disse.

Kelly Callahan, de 56 anos, vê o uso de drones no Oriente Médio e no Norte da África como o pior legado do democrata. Ela também acredita que sua vida não mudou, mas diz que o governo fez algo positivo:

— Obama deu um novo discurso para as questões ambientais. Até no final do mandato, tem aprovado reservas ambientais e parques nacionais. Ele pensa no futuro do país.

Mas um grupo que promete não esquecer Obama é o dos homossexuais. Foi em seu mandato, graças às nomeações feitas pelo democrata, que o casamento entre pessoas do mesmo sexo foi aprovado na Suprema Corte:

— Sou gay e já estou triste com a saída de Obama. O que ele fez por mim e por meus amigos é incrível. Vejo muito mais acesso à saúde e todos com mais dignidade — disse o estudante Jonathan Hall, 25. — Trump vai barrar avanços, mas não tem como reverter direitos adquiridos.

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