Início Mundo Ameaça de Trump de guerra comercial ao México é criticada até por republicanos
Mundo

Ameaça de Trump de guerra comercial ao México é criticada até por republicanos

Envie
Envie

WASHINGTON - O anúncio de Donald Trump de que cogita aplicar um imposto de 20% sobre todas as importações do México direcionadas ao mercado americano — para viabilizar a construção de um muro na fronteira com a nação vizinha — iniciou uma guerra entre os dois países e causou reações até no próprio Partido Republicano. Depois de o presidente mexicano, Enrique Peña Nieto, cancelar a visita que faria na semana que vem aos EUA, intelectuais, empresários e até o ex-mandatário Vicente Fox saíram em defesa do chefe de Estado. A ameaça de Trump foi recebida com desconfiança até por correligionários republicanos. Em uma série de declarações no Twitter, o senador Lindsey Graham, da Carolina do Sul, afirmou que qualquer proposta que aumente os preços da cerveja Corona, da tequila ou das margaritas é “uma péssima ideia”. Já o senador republicano John Cornyn, do Texas, mostrou-se preocupado com os efeitos que a medida possa acarretar, inclusive sobre o preço da gasolina nos EUA.

Um dia antes, a troca de farpas entre os dois presidentes já indicava o estremecimento das relações. Na sexta-feira, os dois recuaram e, após uma conversa por telefone que durou cerca de uma hora, concordaram em não falar publicamente sobre a questão do pagamento da obra.

“Em relação ao pagamento do muro de fronteira, ambos os presidentes reconheceram suas divergências claras e públicas de opinião sobre esse assunto sensível e concordaram em resolver suas diferenças como parte de uma discussão abrangente sobre todos os aspectos da relação bilateral”, informou um comunicado do governo mexicano.

— Foi uma conversa produtiva, muito boa — esquivou-se Trump, explicando por que manteve a promessa do muro. — Tenho um grande respeito pelo México. Mas, como vocês sabem, o México prejudicou os EUA em negociações e derrotou nossos antigos líderes. Nos fizeram parecer tolos. Não podemos continuar perdendo empregos.

No México, intelectuais, como o historiador Enrique Krauze, descreveram a crise como a mais delicada entre os dois países desde o fim da guerra há 170 anos — quando metade do território mexicano foi anexado aos EUA.

Ainda mais enfático, o ex-presidente Vicente Fox afirmou não acreditar que Trump queira realmente iniciar um conflito comercial, já que os “EUA têm muito a perder”. O país é o terceiro parceiro comercial dos EUA, depois do Canadá e da China.

— Ele tem muito a perder, começando por dez milhões de empregos — desafiou Fox, lembrando que seu país importa anualmente produtos dos EUA num valor de US$ 250 bilhões. — Há toda uma cadeira produtiva que depende disso. Acho que agora o senhor Trump se deu conta de que não pode jogar com o México.

O país e os EUA também são aliados estratégicos na guerra ao narcotráfico. O Congresso americano destinou US$ 2,5 bilhões à Iniciativa Mérida — programa que ofereceu ao México funcionários e treinamento para combater o crime organizado.

Na sexta-feira, o empresário Carlos Slim, homem mais rico do México e o quarto do mundo, segundo a “Forbes”, disse que o país está pronto para negociar e lembrou que agora todos os partidos políticos apoiam o presidente Peña Nieto. Mesmo assim, defendeu a postura do presidente americano.

— Trump não é um exterminador, é um negociador. O maior muro que nós podemos ter são investimentos e criação de empregos no México — afirmou o magnata.

Na quinta-feira, o ministro mexicano das Relações Exteriores, Luis Videgaray, afirmou que seu país está disposto a dialogar para ter boas relações com os EUA, mas destacou que pagar pelo muro na fronteira comum “é inegociável”.

O chanceler estava na Casa Branca para preparar a visita de Peña Nieto a Washington quando recebeu a informação sobre um tuíte de Trump, sugerindo que o presidente mexicano não deveria ir aos EUA caso não se dispusesse a pagar pelo muro. Pouco depois, Peña Nieto cancelou oficialmente a visita. O chanceler destacou que a imposição de taxas deixaria os produtos mexicanos mais caros nos EUA. Trump também já ordenou que todos os departamentos e agências federais dos EUA identifiquem ajuda direta ou indireta ao país vizinho.

A crise diplomática fez com que outros líderes se pronunciassem. O governo da Espanha pediu um “diálogo respeitoso” entre os países para diminuir a crescente tensão bilateral. Já o prefeito de Berlim solicitou que Trump renuncie à construção, lembrando o “sofrimento” causado na Alemanha e na Europa pelo Muro de Berlim.

Siga-nos no

Google News