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Alemanha volta a ter serviço militar, por enquanto voluntário

Por Folha de São Paulo

13/11/2025 9h10 — em
Mundo



BERLIM, ALEMANHA (FOLHAPRESS) - Em mais um sinal de recrudescimento da tensão geopolítica na Europa, a Alemanha confirmou nesta quinta-feira (13) a volta do serviço militar no país. Por enquanto voluntário, mas com um gatilho de obrigatoriedade caso as Forças Armadas não consigam atrair jovens suficientes a partir de 2026.

Após semanas de impasse e um debate público que vem desde o ano passado, integrantes da coalizão de governo montada por Friedrich Merz anunciaram detalhes do novo sistema, inspirado em modelos dos países nórdicos. Uma prioridade do país diante de uma política da Rússia vista como expansionista e tratada como ameaça existencial desde a invasão da Ucrânia em 2022.

Todos os jovens que completam 18 anos em 2026 serão submetidos a um questionário para avaliar sua disposição de servir na Bundeswehr, as Forças Armadas alemãs. O preenchimento será obrigatório para homens e voluntário para mulheres; também será obrigatório a realização de exames médicos.

Um salário mensal bruto de € 2.800, elevado para um jovem na Alemanha, e subsídios para obter carteira de motorista, procedimento normalmente caro no país, serão os principais incentivos para atrair voluntários. Em 2026, 300 mil deverão se submeter ao processo.

De acordo com protocolos da Otan, a aliança militar ocidental, a Alemanha precisa aumentar seu efetivo dos atuais 182 mil integrantes para até 260 mil em 2035. Ainda não está claro qual seria a meta anual de recrutamento, que precisa ainda prever o número de soldados que podem dar baixa ou se aposentar no período.

"Outros países europeus, especialmente no norte, mostram que o princípio da voluntariedade aliado à atratividade funciona. Espero o mesmo aqui", declarou Boris Pistorius, ministro da Defesa, na manhã desta quinta.

O sistema de questionário é claramente inspirado no modelo sueco. Todo jovem que completa 18 anos no país, não importa o gênero, é obrigado a completar o formulário, sendo que apenas 4% dos respondentes são chamados para testes físicos e psicológicos. Destes, apenas um terço será efetivamente chamado para servir por 9 ou 15 meses, a depender da aptidão.

Durante o processo, os jovens são bombardeados com mensagens do governo sobre defesa da democracia, do país e da própria carreira profissional, já que o serviço é pago e serve para engordar currículos.

A Suécia, que se tornou o 32° integrante da Otan no ano passado e também lida com a expectativa de um eventual conflito com a Rússia no mar Báltico, retomou o recrutamento militar em 2017.

A Alemanha, que abandonou o serviço obrigatório em 2011, segue caminho parecido agora. Outro modelo nórdico gerou, no entanto, mais discussão. Na Dinamarca, há um sorteio automático caso o número necessário de voluntários não seja alcançado na seleção final.

Pistorius foi contra a adoção do sistema, justificando que o caráter aleatório do sorteio geraria frustração. "Precisamos convencer a geração mais jovem com argumentos, em vez de frustrá-la", disse o ministro, integrante do SPD, que forma a coalizão de governo com os conservadores da CDU, partido de Merz.

"Teremos compromissos mais vinculativos em relação ao serviço voluntário", declarou Jens Spahn, líder da CDU, contornando a polêmica com um eufemismo. Ficou acertado que o sorteio ocorrerá caso as metas de recrutamento não sejam atingidas, mas tudo isso a partir de uma nova legislação que deixará o gatilho do sistema nas mãos do Bundestag.

Ou seja, o Parlamento alemão poderá decidir pela obrigatoriedade do sistema se achar que a situação do país exige, mas não é obrigado a fazê-lo. Na prática, este papel já é da Casa, mas alteração foi a solução encontrada para manter a designação do serviço como voluntário em um momento de baixa popularidade do governo Merz, no poder há pouco mais de seis meses.

"Não há motivo para preocupação, não há motivo para medo", declarou Pistorius em entrevista coletiva. "Quanto mais capazes nossas Forças Armadas forem em termos de dissuasão e defesa, por meio de armamento, treinamento e pessoal, menor será a probabilidade de nos tornarmos parte de um conflito."

Apesar de suspenso em 2011, o serviço militar na Alemanha continuava previsto na Lei Fundamental, a Constituição do país. O texto, no entanto, só faz referência a homens. A obrigatoriedade para mulheres é um tema recorrente de discussão, mas longe de qualquer consenso capaz de alterar o documento.


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