MIAMI — A música "Rock you like a hurricane", dos Scorpions, chega a ser uma trilha sonora infame para Miami no sábado, mas essa era uma das músicas mais tocadas no George's, em Miami. O bar, um dos raríssimos abertos em toda a cidade no sábado pré-Irma, reunia pessoas que buscavam uma cozinha capaz de servir comida quente, cerveja gelada e um pouco de diversão.
— Já estou com tudo pronto em casa, preciso relaxar — disse a hondurenha Monica Lazaro.
O americano Ben Gaser, de 33 anos, afirma que a tensão na cidade é tão grande que apenas o George's consegue dar um pouco de alegria:
— Enquanto não houver riscos, porque não se divertir?
O dono do bar, George Feagi, quer ficar aberto o quanto puder. Se o furacão vier forte, vai sugerir que seus clientes durmam ali, onde terá vinho e comida:
— Liguei para meus funcionários e perguntei se eles queriam ganhar muito dinheiro. Todos toparam trabalhar hoje — disse ele.
Mas, além das pessoas que se arriscam em bares, há outros em situação muito mais complexa: são as pessoas que não acataram a ordem do governo de abandonar suas casas, medida que atingiu mais de seis milhões de moradores da Flórida.
Pela lei americana, o governo não pode usar a força para retirar as pessoas destas casas, mas o morador assume todo o risco e fica ciente que ele pode não ser socorrido em caso de catástrofe - o governo fica desobrigado de arriscar socorristas nestas operações para pessoas, que estão, principalmente, em locais mais sujeitos à inundações, como a beira-mar ou locais próximos de rios e canais.
— Sei que há a ordem de evacuação, mas tenho certeza da resistência da minha casa. Aqui estou mais seguro que num abrigo ou na estrada, onde posso ficar sem gasolina — disse Anthony, morador de Coconut Grove, que pediu para não dar o sobrenome.
O cônsul brasileiro na Flórida soube de vários casos de brasileiros que não cumpriram a ordem de evacuação por acreditarem que suas residências são seguras.
— É uma decisão pessoal. Cada um tem que avaliar o quão seguro está e os riscos de ficar e sair. Não teremos uma ação especial para esses brasileiros que sabem que as autoridades também terão mais dificuldades em prestar assistência em caso de necessidade - afirmou o embaixador Aldânio Senna Ganem, que já atendeu a 153 consultas de brasileiros devido ao Irma desde a tarde de quinta-feira, quando o consulado começou a funcionar em Orlando, após a ordem de evacuação obrigatória para a área onde está a representação brasileira em Miami.

