BUENOS AIRES - A reta final da campanha presidencial equatoriana poderia, perfeitamente, inspirar o roteiro de uma série ao estilo “House of Cards”. Nos últimos dias — os equatorianos irão às urnas no próximo domingo — o país acompanha uma verdadeira novela nas redes sociais, envolvendo o presidente Rafael Correa, seu vice e candidato a vice da chapa governista, Jorge Glass, e o ex-ministro dos Hidrocarbonetos, Carlos Pareja Yanuzzelli, foragido da Justiça. No centro do escândalo, denúncias de corrupção, hoje, o assunto onipresente na disputa pela sucessão de Correa, que, pela primeira vez em dez anos, não é candidato.
A novela equatoriana que invadiu redes sociais como Twitter e Facebook começou com uma série de vídeos postados pelo ex-ministro de Correa, nos quais ele faz gravíssimas acusações contra o vice, incluindo até mesmo sua participação no esquema de propinas da Odebrecht no Equador — a empresa já admitiu ter pagado cerca de US$ 35 milhões em subornos no país. O apelido de Pareja é Capaya e suas polêmicas revelações, que ainda não foram provadas, passaram a ser chamadas de Capayaleaks. Ele é investigado por suposto envolvimento em casos de corrupção na estatal Petroecuador e está refugiado nos Estados Unidos.
Praticamente não se fala em outra coisa no Equador, onde apoiadores do governo temem que o Capayaleaks, somado a outras denúncias e à insatisfação social pela estagnação econômica, acabe prejudicando o candidato da governista Aliança País, Lenín Moreno. O governo aposta numa vitória no primeiro turno, ciente de que um eventual segundo turno poderia unir a oposição num movimento do tipo “todos contra Correa”.
Mas, para isso, Moreno precisa obter mais de 40% dos votos e uma vantagem de pelo menos dez pontos percentuais em relação ao segundo colocado. Atualmente, a maioria das pesquisas indica que o governista tem entre 32% e 35% das intenções de votos. O opositor mais bem posicionado é o ex-banqueiro Guillermo Lasso, com entre 20% e 22% dos votos.
— A corrupção é o tema central desta campanha, a mais suja da História do Equador. Não temos propostas, debate... temos hackers e acusações sem provas — disse o consultor político Pipo Lasso, que não tem parentesco com o candidato.
Correa já admitiu publicamente a possibilidade de um segundo turno e acusou Pareja — que integrou seu círculo mais íntimo de colaboradores durante anos — de ser um traidor. O governo se defende afirmando que foi o primeiro a respaldar as investigações na Petroecuador e afastar funcionários corruptos. Mas existem sérias dúvidas, segundo analistas, sobre o envolvimento de outros funcionários na companhia estatal e no caso Odebrecht.
— Não está claro o impacto do que estamos vendo no voto dos equatorianos, mas existem riscos para o governo — afirmou Marco Arauz, diretor adjunto do “El Comercio”. — O vice-presidente é peça central no esquema de poder de Correa e, se as denúncias forem confirmadas, as consequências poderiam ser muito graves.

