Ministério da Saúde enviou médicos a Manaus para impor tratamento precoce

Por Portal do Holanda

21/07/2021 21h58 — em Manaus

Foto: Reprodução

Manaus/AM - No auge da pandemia no Amazonas e na crise de oxigênio, o Ministério da Saúde enviou a Manaus médicos para indicarem remédios sem eficácia comprovada contra a Covid-19, apontam documentos da CPI da Covid, que mostram que o governo federal agiu diretamente na tentativa de impor o uso de medicamentos sem comprovação científica na capital.

Há relatos da criação de tendas paralelas para burlar a orientação de médicos contra o tratamento sem eficácia, com prescrição e disponibilização de "kit covid". E ainda, um vídeo divulgado nesta quarta-feira (21), mostra o treinamento secreto que Mayra Pinheiro fez para depor na CPI da Covid. 

Conforme o Jornal Nacional, os documentos obtidos a partir da quebra de sigilo dos e-mails da secretária de Gestão do Trabalho do Ministério da Saúde, Mayra Pinheiro, apontam que em janeiro de 2021, o Ministério da Saúde bancou a viagem de 11 médicos à capital do Amazonas, com apenas um objetivo: orientar os profissionais de saúde a receitarem remédios sem eficácia no tratamento do coronavírus. 

Mayra Pinheiro coordenou a operação, e após alguns dias em Manaus, os médicos mandaram um relatório, no dia 20 de janeiro, a ela e ao secretário de Ciência, Tecnologia, Inovação e Insumos Estratégicos em Saúde, Hélio Angotti.  “Segue o relatório que tinha a data para ser preenchido até o dia de hoje, com a finalidade de relatar o que foi encontrado nas visitas das UBSs em Manaus, se adota ou não o tratamento precoce. Seguindo com algumas opiniões e possíveis soluções dos médicos voluntários”, afirma o técnico do ministério, no documento sob o título de “Relatório UBS Manaus”.

Os documentos comprovam que Mayra Pinheiro mentiu na CPI da Covid em maio, ao afirmar que o Ministério da Saúde nunca recomendou esses tratamentos.

Nesse relato, os médicos constatam que 13 Unidades Básicas de Saúde de Manaus adotavam o tratamento da Covid-19 com medicamentos sem eficácia e apenas 7 não adotavam.

O médico Gustavo Vinícus Pasquerelli Queiroz relatou que alguns médicos da cidade resistiam a prescrever tais remédios sem eficácia e sugeriu “a criação de ‘tendas de tratamento precoce’, onde atuariam profissionais que aderem esta modalidade terapêutica. Para não haver discordâncias entre as prescrições, sugiro a criação de um ‘kit’”.

"Assim sendo, daríamos a opção dos doentes escolherem e não dos profissionais. Visto que atualmente, os doentes têm que ter a ‘sorte’ de ser atendido por um médico prescritor do tratamento precoce. Com as tendas, a decisão fica a cargo dos pacientes. Por fim, mesmo que os colegas locais aceitem o tratamento precoce, as UBS’s não disponibilizam as medicações. Algumas unidades não têm nem dipirona", segue.

O médico Luciano Dias Azevedo, investigado pela CPI por integrar um gabinete paralelo que aconselhava Jair Bolsonaro a adotar medidas contrárias à ciência, relata também no e-mail visitas feitas no dia 15 de janeiro e detalha a imposição do governo no tratamento das vítimas da Covid no Amazonas.

Apontado como responsável por propor que na bula da cloroquina constasse a recomendação de uso contra a Covid - proposta essa recusada pelo diretor-presidente da Anvisa -, Luciano propôs que enfermeiros passassem por cima da recomendação de médicos que fossem contrários ao tratamento sem eficácia, e começassem a prescrever o “tratamento precoce”.

"Problema: Poucos médicos que prescrevem o tratamento precoce. Solução: Aumentar o número de profissionais médicos que prescrevem tratamento precoce nas unidades básicas e/ou dar autonomia de prescrição para os enfermeiros treinados no escore clínico associado a treinamento na identificação das fases da doença para prescreverem os pacientes e moradores do mesmo lar".


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