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Quadro geral na América Latina hoje é de instabilidade, diz pesquisador da UnB

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A renúncia de Evo Morales da presidência da Bolívia no último domingo, 10, após protestos maciços e pressão das Forças Armadas, é menos um episódio isolado e mais uma situação comum em um quadro de instabilidade regional pela qual passam os países da América Latina. A avaliação é do historiador Carlos Eduardo Vidigal, doutor em relações internacionais e especialista em história contemporânea da região onde vivem 400 milhões de habitantes.

"A região vive hoje um quadro de instabilidade geral e não está claro o que vai acontecer depois", afirmou o professor da Universidade de Brasília (UnB). "Mas é importante dizer que o que acontece agora - crises políticas, vazios de poder ou governos autoritários - não é nada novo". Segundo ele, houve uma certa ilusão, fortalecida a partir dos anos 1990, de que golpes eram coisas do passado na região. "Não é bem assim. Por isso, é importante fortalecermos a institucionalidade e avançar na garantia dos direitos sociais".

Questionado sobre se há uma relação na queda de Evo com os protestos que há um mês fizeram balançar o governo do presidente Sebastián Piñera no Chile, culminando com o anúncio de uma nova Constituição, ou entre as manifestações no Equador contra o fim dos subsídios para combustíveis, o pesquisador responde que o caso boliviano é especial.

"Para mim, a Bolívia é uma experiência única. Não dá para comparar com Venezuela, Equador, Chile e muito menos Brasil ou Argentina". Segundo Vidigal, houve na Bolívia uma reação orquestrada de setores incomodados com a ascensão de Evo, em 2006. Ele lembra, inclusive, que o país quase vivenciou uma guerra civil no início do governo com uma nova Constituinte. "Isso não pode ser deixado de lado".

"Empresários, fazendeiros de Santa Cruz de la Sierra (região mais rica do país), mineradores e outros grupos que foram afetados por uma política distributivista se articularam com conservadores - evangélicos e mesmo católicos - e conseguiram o apoio de setores das Forças Armadas", explicou.

Para o professor, a maior parte dos descontentes é formada por descendentes de espanhóis nascidos na América Latina que "monopolizaram o Estado" até os dias de hoje. "Perderam apenas para Evo. E não estavam acostumados com a emancipação dos setores populares, ainda mais com o reconhecimento de um Estado Plurinacional".

Segundo ele, pesaram ainda para a renúncia o fato de Evo não ter criado um sucessor à altura e à ausência de um programa de governo melhor definido. "A reeleição (com denúncias de fraudes) foi a oportunidade para os setores protestarem e se organizarem".

O pesquisador diz ainda que existe uma insatisfação popular na América Latina de longa duração com as políticas liberais que vêm desde a década de 1970, iniciando no Chile e depois na Argentina. "Até os dias de hoje elas vêm desmontando o Estado de bem-estar social, que na nossa região nunca foi tão robusto assim, e não têm conseguido dinamizar a economia como alguns países centrais - Estados Unidos e Inglaterra - conseguiram em outras épocas".

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