Milton Hatoum conversou com o escritor Hisham Matar e o mediador Paulo Roberto Pires na Mesa 17 [não mais sabemos do barco, mas há sempre um náufrago] da Festa Internacional de Paraty (Flip) de 2026 neste sábado, 25.
O autor falou a respeito de sua trilogia O Lugar Mais Sombrio, e também sobre a literatura e a sociedade brasileira de hoje e da época da ditadura militar. O evento contou com transmissão ao vivo no YouTube.
'Intelectual não deve ficar calado', pede Milton Hatoum na Flip 2026
Em determinado momento, Pires comentou sobre a "função do escritor como um intelectual que se posiciona no debate público" em um contexto como o da atualidade.
Hatoum respondeu: "O intelectual, o artista, uma pessoa que tem consciência histórica e uma mínima relação sensível com os outros que estão sofrendo, essas pessoas têm que dizer a verdade ao poder."
"Seja no Oriente Médio, na Palestina ou no Brasil de quatro anos atrás e no Brasil de hoje, de uma possível catástrofe que se anuncia. Mas não acredito nisso. Sou muito otimista em relação a essas eleições", prosseguiu.
"Mas acho que são momentos em que o intelectual não deve ficar calado, não deve silenciar. Porque o silêncio é cúmplice da barbárie", encerrou Milton Hatoum.
Por que Milton Hatoum só escreve sobre o passado
O autor falou sobre a importância da distância temporal em relação ao contexto das histórias que conta como uma necessidade para "tirar alguma coisa desse passado, cuja memória acaba se transformando na imaginação".
"Eu não conseguiria escrever sobre um passado recente. As pessoas me perguntam: 'Por que você não escreve sobre o que aconteceu no Brasil no último governo?' Primeiro porque nenhum personagem ali é complexo, são todos horrorosos [Risos]. Não há complexidade possível."
Milton Hatoum e a diferença entre 'pessoa e personagem'
O escritor amazonense começou sua participação falando sobre a trilogia O Lugar Mais Sombrio, formada pelos livros A Noite de Espera (2017), Pontos de Fuga (2019) e Dança de Enganos (2025). Contou que começou a pensar na história quando era bolsista do governo espanhol, na década de 1980.
Relembrou a fala de um antigo amigo, que já morreu, um exilado argentino. "Ele falou uma coisa interessante. As personagens não são personagens, são pessoas. Na época eu não entendi direito. Depois entendi o que ele quis dizer", disse Hatoum.
"A diferença é que a personagem não deve ser inspirada por uma pessoa. É uma construção mais complexa, que pode ser construída a partir de alguém que você conhece, mas com outros elementos imaginários, que possam mudar o comportamento dela. É diferente da pessoa que você conhece. Porque uma só pessoa não dá uma boa personagem, de modo geral. É preciso cruzamentos de muitas coisas", prosseguiu.
'Sou um pouco Martin', diz Milton Hatoum
Sobre o narrador de O Lugar Mais Sombrio, analisou: "O Martin não é um militante. Porque seria muito óbvio ter um narrador militante. Preferi trabalhar com esse narrador um pouco mais hesitante, cujo drama moral apontaria para outra coisa. Não para a política, mas para o sentimento de perda - o que eu acho mais forte. E essa perda é a mãe."
"Até hoje há centenas de desaparecidos no Brasil, a gente não pode esquecer disso. As famílias ainda estão numa espécie de luto, não resolveram essa questão, porque não enterraram seus entes queridos que foram assassinados. Não conseguem concluir o luto, e isso se transforma em uma eterna melancolia", comentou, em outro momento.
Milton Hatoum também se comparou ao personagem: "Eu sou um pouco Martin, mas só um pouco. Não tinha um dado biográfico muito forte, meu pai não era esse monstro."
Milton Hatoum sobre medo e coragem
O escritor citou Guimarães Rosa para fazer outra reflexão envolvendo a vida e a literatura: "Há momentos de medo em que você fica cristalizado, não consegue sair do seu lugar. Te paralisa. E tem os momentos de coragem. A gente cai e a gente se levanta."
"Tem uma frase lida do Grande Sertão[:Veredas] sobre isso. O tombo, a queda, e que depois você se reergue e continua. Mas essa alternância entre medo e coragem faz parte da nossa vida. É totalmente humana."
"Nos momentos mais brutos da ditadura você se retrai. Mas um grupo de pessoas muito corajosas, com ideais muito fortes, vão lá e combatem a ditadura. Isso aconteceu em qualquer lugar e aconteceu no Brasil", prossegue Hatoum.
Flip 2026
A Festa Literária Internacional de Paraty teve início na última quarta, 22, e se encerra neste domingo, 26.



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