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Julia Almeida relata como a família lidou com o avanço do Parkinson de Manoel Carlos

Estadão

O novelista Manoel Carlos morreu em 10 de janeiro, aos 92 anos, no hospital, segurando a mão da filha, a atriz Julia Almeida. Em entrevista à revista Veja , ela relembrou como foram os últimos anos de convivência com o pai durante o avanço do mal de Parkinson.

Segundo Julia, acompanhar a progressão da doença foi uma experiência marcada por amor, dedicação e desafios constantes dentro da família.

"A convivência com meu pai nos anos em que o Parkinson avançava foi afetuosa e dolorosa ao mesmo tempo. Preservar a dignidade dele era a minha maior preocupação. Tenho paz em saber que fiz tudo o que estava ao meu alcance para confortá-lo", afirmou.

Mudanças na rotina da família

Com a doença, a rotina da família passou por grandes transformações. O cotidiano começou a girar em torno de consultas médicas, exames e da organização de uma rede de cuidados dentro de casa.

Julia contou que a mãe, Bety de Almeida, teve papel essencial nesse período, oferecendo apoio emocional e estando presente em todos os momentos.

"O diagnóstico mudou completamente nossas rotinas. Passamos a lidar com médicos, ajustes práticos e pessoas entrando e saindo da casa para ajudar. Minha mãe esteve sempre ao lado dele, sustentando a família emocionalmente", relatou.

Preservando hábitos e pequenos prazeres

Mesmo com as limitações impostas pela doença, a família procurou manter alguns hábitos que eram importantes para Manoel Carlos, preservando ao máximo sua rotina.

Entre esses momentos estavam a ida à piscina acompanhada por um fisioterapeuta, entre outros pequenos prazeres do cotidiano.

"Ele valorizava muito seus costumes. Tentamos manter coisas simples que eram importantes para ele: o picolé de coco, a cerveja gelada aos domingos, a água mineral em garrafa de vidro e o jornal que lia diariamente", contou.

Internações e proximidade nos últimos meses

No último ano de vida do autor, as complicações da doença se intensificaram e as internações hospitalares se tornaram mais frequentes. Ainda assim, a família buscou manter a proximidade.

"Às vezes alguém do hospital ligava dizendo: 'Seu pai sonhou com você, fala um oi'. Então fazíamos uma videochamada. Pequenos gestos nos aproximavam mesmo nos dias mais difíceis", relembrou.

Julia também recordou o último Natal ao lado do pai. Segundo ela, naquele momento já havia uma compreensão silenciosa sobre a fragilidade da situação.

"Conversei com ele, beijei sua testa e disse que ele podia descansar. Não era resignação, era um reconhecimento do que já vinha acontecendo."

O cuidado com o legado

Após a morte do autor, Julia passou a se dedicar à preservação da obra do pai. Entre os projetos estão documentários que resgatam sua trajetória e a importância de seus personagens na televisão brasileira.

Ela está à frente das produções O Leblon de Manoel Carlos e As Helenas de Manoel Carlos, além de organizar um grande acervo deixado pelo escritor.

"Catalogar cada caixa tem sido também uma forma de atravessar o luto. Meu pai dizia que o que construiu era maior que o tempo. Para mim, isso virou um compromisso", afirmou.

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