Uma homenagem para uma poeta que sempre priorizou a palavra não poderia começar de outra forma se não com a própria poesia. Foi esta a ideia para a mesa sobre Orides Fontela (1940-1998) que abriu a 24ª Flip (Festa Internacional de Paraty) na noite desta quarta-feira, 22, que teve início marcado por uma performance e leitura poética da poeta e ensaísta Marília Garcia.
Ela foi escolhida para, ao lado do crítico literário Augusto Massi, conduzir a mesa de abertura da Flip dedicada à Orides, escolhida como autora homenageada desta edição da Flip, que segue até o domingo, 26, na cidade histórica fluminense, com participação de diversos escritores brasileiros e internacionais.
A abertura foi a largada para praticamente cinco dias repletos de poesia. E Marília, que participou da Flip no ano passado para falar de sua própria obra poética, abriu esta edição com uma apresentação que relacionou o trabalho de Orides com o de outros intelectuais e poetas, com anedotas diversas e com a sua própria vida, inclusive citando uma forte doença que sofreu há dois anos e a perda do amigo Aníbal Cristobo, escritor argentino que morreu em março de 2026.
Uma história chamou a atenção: há certo tempo, um leitor mandou uma mensagem para Marília contando que encontrou um recibo da poeta no livro Enigma e Comentário , do crítico literário Davi Arrigucci Júnior, alugado na biblioteca da Puc-Rio em 2012. Quando soube da homenagem a Orides, Marília retornou à biblioteca e procurou pelo mesmo livro. Desta vez, por acaso do destino, encontrou um papel com um poema de Orides: "Leio minha mão. Livro único". O papel vinha com um recado: passe adiante. Então Marília passou, agora na Flip.
A menção a Davi Arrigucci Júnior é simbólica. Conterrâneo de Orides na cidade de São João da Boa Visto, no interior de São Paulo, foi ele quem "a descobriu" depois de ler um poema seu no jornal O Município . Apresentou a poeta para Antonio Candido, fundador do Suplemento Literário do Estadão e um dos mais importantes intelectuais brasileiros - o crítico também foi um dos mais importantes impulsionadores da obra de Orides, como destacou Massi mais tarde na mesa. Foi um ensaio de Cândido sobre Alba , terceiro livro de Orides, que ajudou a popularizar seu trabalho entre outros críticos.
Antes da performance de Marília e da aula de Massi, foi exibido um vídeo de Arrigucci, que não pôde estar presente na Flip. Ele e Orides foram colegas na escola, onde a escritora já lia sua poesia para os colegas.
"Esses poemas não me chamaram a atenção, pois não escapavam do gosto médio das pessoas", disse ele. Até reencontrar a poesia de Orides anos mais tarde, quando ela já tinha quase 30 anos. "Aquilo era grande poesia. E, de fato, durante a longa convivência que estabelecemos depois, me dei conta que os poemas ótimos eram muitos", disse. "Tive a impressão que ela tinha um conjunto formidável, fora do comum."
E foi este conjunto que Massi analisou ao concluir a mesa. Ele destacou como, mesmo um corpo de trabalho conciso (apenas cinco livros e pouco mais de 200 poemas), Orides já se tornou uma autora digna de análises complexas. Para o crítico, o gosto de Orides era "por uma poesia visual e plástica".
Ele escolheu destrinchar um poema de cada um de seus livros ( Rebeca , São Sebastião , Penélope , Gatha e Vésper , respectivamente) para mostrar que, mesmo que sua biografia pouco aparecesse em seu trabalho, seus livros acompanharam a evolução de sua trajetória. "É uma poeta universal, algo que perdemos noção diante do anedotário de sua vida."
*A repórter viajou a convite do Instituto Motiva, patrocinador e parceiro oficial de mobilidade da Flip 2026



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