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Silvia Simões

Manaus: da Barra do Rio Negro à correria da Zona Franca

Silvia Simões
Por Silvia Simões
14/09/2026 11h24 — em Silvia Simões

Uma cidade que cresceu, ganhou fábricas, avenidas e milhões de histórias — mas talvez tenha deixado algumas coisas bonitas pelo caminho

Égua, Manaus...

Quem te conheceu há algumas décadas talvez precise parar um pouquinho, respirar fundo e fechar os olhos para lembrar daquela cidade.

Não era perfeita. Longe disso. Mas tinha um jeito diferente. Tinha outro ritmo. Tinha tempo. Tempo para conversar na calçada. Tempo para esperar o vizinho. Tempo para ouvir o vendedor passar.

Tempo para olhar o rio. Tempo para sentar na frente de casa no fim da tarde e descobrir que o assunto nunca acabava.

Hoje? Hoje o amazonense olha para o relógio enquanto olha para o celular, enquanto espera o trânsito andar, enquanto pensa na conta para pagar e enquanto tenta descobrir por que saiu de casa cinco minutos atrasado.

Manaus cresceu.

E cresceu muito. Só que, às vezes, parece que cresceu tão depressa que não teve tempo de olhar para trás.

DA ALDEIA À METRÓPOLE

Antes de ser essa Manaus gigantesca, a região passou por outras histórias, outros nomes e outras formas de ocupação. Houve a aldeia de Manaus, houve o povoado da Barra do Rio Negro, houve a transformação administrativa e, finalmente, a cidade que conhecemos.

O tempo passou. Vieram os ciclos econômicos. Veio a riqueza da borracha. Veio a decadência. Veio a reconstrução. E, depois, veio a Zona Franca .

E aí, meu amigo...

Manaus colocou o pé no acelerador.

O que era uma cidade muito menor passou a receber gente de todos os cantos. A indústria chegou.

O comércio cresceu. Os bairros se espalharam. As ruas se multiplicaram. A população aumentou.

A cidade virou um dos grandes centros urbanos da Amazônia. E aquilo que parecia impossível aconteceu:

Manaus deixou de caber em si mesma.

OS OFÍCIOS QUE O TEMPO LEVOU

Quem viveu Manaus de outros tempos talvez ainda consiga ouvir alguns sons que hoje quase desapareceram.

O padeiro passando. O carvoeiro anunciando seu produto. O barco do leite chegando. O vendedor que conhecia a família pelo nome. A conversa na porta de casa. O rádio ligado. A criança brincando na rua. A vizinhança sabendo da vida de todo mundo — às vezes até mais do que deveria. Era uma cidade em que muitos serviços chegavam até a porta. Não precisava aplicativo. Não precisava senha. Não precisava rastrear pedido. O caboclo simplesmente sabia:

“Tal hora ele passa aqui.”

E passava.

Hoje muitos desses ofícios foram desaparecendo ou diminuindo diante da transformação econômica e industrial da cidade. A Zona Franca criou empregos, movimentou a economia e ajudou a transformar Manaus em um grande polo industrial. Mas a industrialização também trouxe uma cidade maior, mais acelerada e muito mais exigente. Aquela Manaus quase artesanal foi sendo engolida pela Manaus industrial. E não dá para voltar o relógio.

Mas dá para lembrar o que não deveríamos perder.

A CIDADE QUE CRESCEU... E COMEÇOU A ENGARRAFAR

Tem uma hora em que o progresso começa a cobrar estacionamento.

E Manaus sabe disso. Antigamente, o problema era saber onde o padeiro tinha passado. Hoje é saber se você chega em casa antes da novela terminar. Tem rua que começa engarrafada.

Termina engarrafada. E, se deixar, amanhã amanhece engarrafada também.

O carro anda dois metros. Para. Anda mais três. Para. E alguém, dentro do veículo, olha para frente e pergunta:

— “Será que aconteceu alguma coisa?”

Não aconteceu.

É só Manaus mesmo.

Uma cidade que cresceu mais rápido do que muita coisa conseguiu acompanhar.

E OS IGARAPÉS?

Aqui a saudade encontra a tristeza. Os igarapés fazem parte da identidade amazônica. Eles deveriam ser caminhos de água, espaços de vida, referências da nossa paisagem. Mas muitos foram transformados em depósitos de lixo e esgoto. A água que deveria correr livremente carrega aquilo que a cidade não soube — ou não quis — cuidar. E isso deveria incomodar profundamente todos nós. Porque não é apenas um problema ambiental. É memória. É patrimônio. É identidade. É futuro.

Uma cidade amazônica não pode tratar seus igarapés como se fossem valas de descarte.

E TEM O LIXO

É impossível andar pela cidade sem encontrar algum ponto onde o lixo parece ter decidido montar residência. Saco aqui. Garrafa ali. Entulho acolá. E, quando chove, a cidade ainda pergunta por que alaga. Ora… A água tenta passar. O lixo responde:

“Hoje não, chefe.”

E lá vai a água procurar outro caminho. Depois reclamamos da enchente. Mas a cidade também precisa fazer sua parte. Não existe política pública que funcione sozinha se a população continuar tratando a rua como extensão da lixeira de casa.

Manaus precisa de governo.

Mas também precisa de cidadão.

E AS ÁRVORES?

Essa talvez seja uma das maiores saudades. Uma Manaus mais verde. Mais sombreada.

Mais humana. Hoje existem lugares onde a pessoa caminha no sol como se estivesse atravessando uma frigideira. E Manaus não precisava ser assim. Somos Amazônia!

Como é que uma cidade localizada no meio da maior floresta tropical do planeta consegue ter ruas onde a sombra virou artigo de luxo?

Uma árvore na calçada não é apenas decoração. É sombra. É conforto. É qualidade de vida. É paisagem. É memória. É uma pequena gentileza que a cidade oferece ao cidadão.

A ZONA FRANCA NÃO É A VILÃ

É importante dizer isso. Não podemos transformar a Zona Franca em culpada por tudo. Ela faz parte da história econômica contemporânea de Manaus e foi fundamental para sua transformação. O problema é outro.

Toda cidade que cresce precisa aprender a crescer junto com as pessoas.

Não basta produzir mais. É preciso respirar melhor. Não basta ter indústria. É preciso ter transporte. Não basta abrir ruas. É preciso ter árvores. Não basta construir bairros. É preciso saneamento. Não basta aumentar a economia. É preciso melhorar a vida. Porque desenvolvimento não pode ser apenas aquilo que aparece no gráfico.

Desenvolvimento também é poder caminhar pela cidade sem medo de cair num buraco.

É atravessar uma rua sem disputar espaço com carros. É ter um igarapé limpo. É ter praça. É ter sombra. É ter calçada. É ter tempo.

TALVEZ O QUE MAIS TENHAMOS PERDIDO SEJA O TEMPO

Essa é a parte que dói. Não é somente a cidade que mudou.

Nós também mudamos.

Antes, a pessoa visitava alguém sem mandar mensagem:

— “Estou chegando.”

Ela simplesmente chegava. Hoje até para visitar parente parece necessário marcar reunião.

Antes, o vizinho sabia quando você estava precisando de ajuda. Hoje às vezes mora gente ao nosso lado durante anos sem sabermos sequer o nome. Antes, criança brincava na rua.

Hoje a rua virou lugar de carro, moto e buzina.

Antes, o fim da tarde era uma pausa. Hoje o fim da tarde é o início de outra corrida.

MANAUS NÃO PRECISA VOLTAR AO PASSADO

E talvez seja justamente essa a grande reflexão. Ninguém está dizendo que devemos abandonar a indústria, a tecnologia ou o crescimento. Não. Manaus não precisa voltar a ser pequena.

Precisa aprender a ser grande sem perder a alma. Podemos ter indústria e árvores. Podemos ter avenidas e calçadas. Podemos ter tecnologia e conversa na varanda. Podemos ter Zona Franca e igarapés vivos. Podemos ter uma metrópole e ainda preservar aquilo que nos torna amazônicos.

Porque progresso que destrói nossa identidade não é exatamente progresso. É apenas crescimento.

ENTÃO, MANAUS...

Talvez hoje seja um bom dia para parar alguns minutos. Respirar fundo. Olhar para o céu.

Escutar um passarinho — se o barulho dos carros deixar. Lembrar daquela Manaus que nossos pais e avós conheceram. Lembrar do padeiro. Do carvoeiro. Do barco do leite. Da rua mais tranquila. Da árvore na frente de casa. Do igarapé que ainda tinha vida. Da conversa demorada. Do vizinho que aparecia sem avisar. Da criança que brincava até a mãe gritar:

“Entra pra dentro, menino!”

E a resposta vinha:

— “Já vou!” Nunca ia.Porque criança amazonense também sabia aproveitar o tempo.

Manaus cresceu. A economia cresceu. A população cresceu. A correria cresceu.

Mas que nunca nos falte a vontade de fazer crescer também aquilo que realmente importa:

uma cidade mais limpa, mais verde, mais humana e mais amazônica.

Porque aquela velha Manaus talvez não volte. Mas seus valores podem voltar. A sombra de uma árvore pode voltar. O igarapé limpo pode voltar.

A calçada cheia de conversa pode voltar. O respeito pelo espaço público pode voltar.

E a sensação de que a cidade pertence às pessoas — e não apenas aos carros, ao concreto e à pressa — também pode voltar. No fundo, talvez seja isso que o amazonense esteja procurando quando sente saudade dos velhos tempos. Não é exatamente a cidade antiga.

É o jeito antigo de viver a cidade.

E, quem sabe, um dia Manaus possa ser novamente grande...

sem deixar de ser nossa.

Porque cidade boa não é aquela que apenas cresce.

É aquela que, enquanto cresce, ainda permite que seu povo respire.

Acho que essa pode ser uma das colunas mais emocionais da série . Ela começa com a história, passa pela Zona Franca, entra no cotidiano — trânsito, lixo, igarapés, falta de árvores — e termina sem saudosismo barato: Manaus não precisa voltar a ser a cidade de antigamente; precisa recuperar o que havia de humano nela.

Silvia Simões

Silvia Simões

Cirurgiã Dentista universidade Federal do Amazonas- Especialista em Odontologia – Saúde Pública – Universidade Federal do Amazonas- Especialista MBA em Administração Hospitalar e Gestão de Serviços de Saúde – Universidade Nilton Lins- Especialista MBA em Gestão de Cooperativas – Faculdades Integradas de Taquara-Mestra em Clínicas Odontológicas – Centro de Ensino e Pesquisa de Pós-Graduação do Norte – Professora Universitária- Coordenadora do Curso de Odontologia Hospitalar- Membro da Academia de Literatura, Arte e Cultura da Amazônia (ALACA)-Ex- Diretora Administrativa do sicoob [email protected]

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