Chico Pequeno conhecia os rios como quem conhece a própria palma da mão. Pescador
desde menino, nunca temera a mata — até aquele dia. A correnteza mudou sem aviso, o céu
escureceu mais cedo, e quando percebeu, já não reconhecia mais nada na comunidade Varre Vento.
O primeiro dia foi de esperança. O segundo, de silêncio. No terceiro, a floresta passou a
respirar contra ele.
Cobras cruzavam seu caminho como sombras vivas. Um rugido de onça ecoava distante,
mas parecia sempre atrás dele. E à noite… vozes. Sussurros que o chamavam pelo nome, como se a
mata o conhecesse melhor do que ele mesmo.
Cansado, faminto e com os olhos ardendo de medo, Chico Pequeno já não corria — apenas
sobrevivia.
Foi então que avistou a cabana. Feita de palha, simples, quase escondida entre as árvores,
parecia não pertencer ao mundo. Com as últimas forças, ele se aproximou e bateu.
A porta se abriu. Um senhor de pele escura, olhos profundos e serenos, o observou como
quem já esperava por ele.
— Entre — disse, com voz calma.
Chico Pequeno entrou tremendo. Recebeu água. Comida. Silêncio.
Depois de algum tempo, ainda com a respiração pesada, perguntou:
— Por que o senhor vive aqui… sozinho… no meio disso tudo?
O velho sorriu de leve, como quem guarda um segredo antigo.
— Eu não estou sozinho. Eu estou com ela.
— Ela?
— A floresta.
Chico Pequeno sentiu um arrepio.
— Meu nome é Mundico Saturnino — continuou o homem — guardião da floresta amazônica.
Estou aqui para que ela não chore.
— Chore?
O velho olhou ao redor. As árvores pareciam ouvir.
— Cada árvore derrubada, cada rio ferido… são lágrimas. Se ninguém cuidar, a Amazônia se
perde… e quando ela se perde, nós também.
O silêncio que se seguiu não era vazio — era pesado.
Naquela noite, Chico Pequeno dormiu pela primeira vez em dias sem medo. Ao amanhecer, a
cabana não estava mais lá.
Nem o velho Mundico Saturnino.Apenas a floresta… intacta.
E, pela primeira vez, Chico Pequeno entendeu:
Nem todo perdido está sozinho — alguns estão sendo encontrados.
Ao despertar, Chico Pequeno sentiu algo diferente no ar. A floresta já não parecia ameaçadora —
era como se o observasse em silêncio, permitindo sua passagem. Sem saber explicar como, seus pés
encontraram o caminho de volta, desviando de igarapés e raízes como se fossem guiados por uma
força invisível.
Horas depois, o som conhecido do rio o acolheu. E, ao longe, avistou sua casa simples, à beira das
águas barrentas do Rio Amazonas.
Antes mesmo de chegar, viu sua família reunida, rostos marcados pela angústia. Quando o
reconheceram, correram ao seu encontro — abraços apertados, lágrimas sinceras, vozes embargadas
de alívio.
Chico Pequeno, ainda em silêncio, olhou cada um deles. Respirou fundo, como quem trazia consigo
algo maior do que palavras.
— Minha família… — começou, com a voz firme — nós não podemos deixar que a Amazônia se
transforme em um rio de lágrimas.
Todos se calaram.
— Perdido nesses dias na floresta, eu aprendi… aprendi a respeitar. A mata não é só lugar… ela é
vida. E essa vida precisa da gente.
Ele fez uma pausa, lembrando dos olhos de Mundico Saturnino.
— Temos que levar isso adiante. Não só pra nós… mas pro mundo todo. Precisamos salvar a
Amazônia, para as futuras gerações.
O vento soprou leve, como um sussurro entre as árvores.
E, naquele instante, Chico Pequeno já não era apenas um pescador — era alguém que carregava a
missão de impedir que as lágrimas da Amazônia corressem em vão.
Silvia Simões
Cirurgiã Dentista universidade Federal do Amazonas- Especialista em Odontologia – Saúde Pública – Universidade Federal do Amazonas- Especialista MBA em Administração Hospitalar e Gestão de Serviços de Saúde – Universidade Nilton Lins- Especialista MBA em Gestão de Cooperativas – Faculdades Integradas de Taquara-Mestra em Clínicas Odontológicas – Centro de Ensino e Pesquisa de Pós-Graduação do Norte – Professora Universitária- Coordenadora do Curso de Odontologia Hospitalar- Membro da Academia de Literatura, Arte e Cultura da Amazônia (ALACA)-Ex- Diretora Administrativa do sicoob [email protected]
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