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Sobreviventes do Ebola confortam crianças doentes nas enfermarias de isolamento do Congo

Reuters
Sobreviventes do Ebola confortam crianças doentes nas enfermarias de isolamento do Congo
Sobreviventes do Ebola confortam crianças doentes nas enfermarias de isolamento do Congo

BUTEMBO, CONGO, 3 Nov (Reuters) - Sempre que Jerkis Mahamba ouve uma criança chorar na ala de Ebola em Butembo, no leste da República Democrática do Congo, ele veste o equipamento de proteção e corre para o lado dela. Ele sabe muito bem o que elas estão passando.

O próprio Mahamba contraiu a doença altamente contagiosa em setembro e se recuperou após 18 dias de tratamento no mesmo centro. Sua provação lhe conferiu imunidade contra a cepa do vírus que circula pelo Congo, o que significa que ele pode trabalhar com pacientes jovens quando os próprios pais não têm permissão para tocá-los.

Às vezes, as crianças precisam de um abraço. Às vezes, querem ser embaladas para voltar a dormir. Às vezes, querem conversar.

O Congo registrou mais de 10.000 casos de Ebola desde que o surto foi declarado, em maio, além de mais de 5.100 mortes, tornando-se o segundo maior surto já registrado.

“EU TAMBÉM PASSEI POR ISSO”

"Eu me apresento e digo a elas: 'Eu também passei por isso'. Peço que não percam a esperança", disse o jovem de 29 anos à Reuters no hospital do bairro de Kitatumba, na cidade.

Ele se lembra de como estava: vomitando, recusando-se a comer, lutando para tomar os remédios.

Ele ainda precisa usar equipamento de proteção e desinfetar suas roupas para não levar o vírus para fora da enfermaria. Mas consegue se aproximar, munido de sua imunidade e de sua empatia.

"Eu os pego no colo e, aos poucos, tento colocá-los de volta na cama", disse Mahamba.

"Quando estão deitados, procuro brincadeiras ou atividades para mantê-los ocupados e ajudá-los a se acostumar a ficar na cama. Quando finalmente adormecem, posso sair do quarto."

Muitas vezes, os parentes observam tudo por uma janela de vidro atrás dele. "Nosso amor pelos nossos filhos é muito forte", disse o tio de uma das crianças, Kambale Syavula Volonté, frustrado por não poder se aproximar mais.

Antes de contrair o vírus de um parente, Mahamba ganhava a vida vendendo material escolar nas ruas de Butembo, um dos epicentros da epidemia -- a segunda maior já registrada --, perto da fronteira com Uganda.

Após sua recuperação, a organização humanitária Médicos Sem Fronteiras (MSF) o contratou para trabalhar no hospital e se juntar a um grupo crescente de sobreviventes na linha de frente do surto.

Muitos trabalham nas enfermarias como amigos, companheiros de brincadeira e apoiadores dos pacientes. Outros assumem tarefas importantes, como limpar e desinfetar quartos e equipamentos.

Alguns também atuam fora do hospital, visitando aldeias e comunidades remotas, tentando dissipar a desinformação e os estigmas que se acumulam em torno do surto, disse o Dr. Toussaint Selemani, chefe do centro administrado pela MSF.

Rumores infundados de que a epidemia faz parte de uma conspiração estrangeira ou de que os profissionais de saúde estariam espalhando a doença levaram a atos de violência reais.

No final do mês passado, jovens armados com facões atacaram dois agentes comunitários de saúde que estavam realizando campanhas de conscientização sobre o surto, matando um e ferindo o outro.

"No âmbito comunitário, um sobrevivente pode se tornar um embaixador poderoso na luta contra a doença", disse Selemani. "Seu depoimento ajuda a combater o medo e o estigma e pode incentivar as pessoas com sintomas a procurarem atendimento imediatamente em um centro de tratamento."

Mahamba também trabalha fora do centro. Ele se lembra do medo e da desconfiança que sentiu à medida que a doença se espalhava e amigos ao seu redor adoeciam.

Agora, ele mostra às pessoas fotos de si mesmo quando estava doente e as incentiva a se protegerem.

Mas a maior parte do seu tempo é dedicada ao hospital, trabalhando com as famílias e prestando atenção aos choros das crianças nas enfermarias de isolamento.

"Os pacientes em isolamento podem estar estressados e com medo de morrer", disse Selemani. "Quando encontram alguém que passou pela mesma provação e sobreviveu, isso pode restaurar a esperança."

(Reportagem de Gradel Muyisa)

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