“O amigo deve ser como o dinheiro; é preciso conhecer seu valor antes de precisar dele.” — Sócrates
Há frases que atravessam os séculos porque continuam dizendo aquilo que muitas vezes não queremos ouvir. A reflexão atribuída a Sócrates sobre amizade e confiança é uma dessas verdades que permanecem atuais: o verdadeiro valor de alguém não se descobre quando tudo está bem, mas quando a vida nos coloca diante da necessidade.
Vivemos cercados de pessoas, mas nem sempre acompanhados de amigos.
Temos contatos no telefone, seguidores nas redes sociais, grupos de mensagens e encontros virtuais. Nunca foi tão fácil encontrar pessoas e, paradoxalmente, talvez nunca tenha sido tão difícil encontrar alguém verdadeiramente disposto a permanecer.
A amizade verdadeira não é construída na conveniência. Ela é construída no tempo.
É fácil estar ao lado de alguém quando existe festa, sucesso, dinheiro, reconhecimento e alegria. Difícil é permanecer quando chegam o silêncio, a perda, a decepção, a doença, a dificuldade financeira, o fracasso ou simplesmente aqueles dias em que não temos nada para oferecer.
É nesse momento que a vida separa companhia de amizade.
O amigo verdadeiro não pergunta primeiro o que ganhará. Pergunta como pode ajudar.
Não precisa estar presente todos os dias para provar sua lealdade, mas aparece quando sua presença realmente importa. Não precisa concordar com tudo, porque sabe que, algumas vezes, amar também significa dizer a verdade.
A verdadeira amizade não é aquela que alimenta nosso ego. É aquela que protege nossa dignidade.
A confiança é uma riqueza
Confiar em alguém é entregar uma parte de nossa história nas mãos de outra pessoa.
Por isso, confiança não deveria ser distribuída como um cartão de visita. Ela precisa ser construída.
Palavras podem ser bonitas, promessas podem emocionar e discursos podem convencer. Mas é o comportamento repetido ao longo do tempo que revela quem realmente somos e quem realmente está ao nosso lado.
Caráter não se anuncia. Caráter se demonstra.
Talvez por isso a vida seja uma grande escola de relacionamentos. Ela nos apresenta pessoas, permite que convivamos com elas e, pouco a pouco, revela suas verdadeiras intenções.
Algumas chegam para ficar.
Outras chegam para ensinar.
E algumas simplesmente passam.
Não devemos lamentar todas as pessoas que partiram. Há encontros que cumprem sua missão e depois precisam terminar. O importante é saber distinguir quem nos acompanha por amor daqueles que permanecem apenas enquanto existe alguma vantagem.
Quando a necessidade chega
É nos momentos de necessidade que muitas máscaras caem.
Quando temos recursos, prestígio ou visibilidade, sempre haverá quem queira estar perto. Mas quando perdemos alguma dessas coisas, descobrimos quem estava interessado em nossa essência e quem estava interessado apenas naquilo que poderíamos proporcionar.
A dificuldade não cria necessariamente a distância. Muitas vezes, ela apenas revela a distância que já existia.
Por isso, não espere uma grande crise para descobrir quem são seus verdadeiros amigos.
Observe hoje.
Quem comemora sinceramente suas conquistas?
Quem respeita seus momentos de silêncio?
Quem não transforma sua fragilidade em fofoca?
Quem permanece quando você não pode oferecer nada?
Quem estende a mão sem precisar anunciar ao mundo que ajudou?
Essas pessoas são patrimônio afetivo.
E talvez sejam uma das maiores riquezas que alguém pode acumular durante a vida.
Redes sociais e a ilusão da amizade
As redes sociais trouxeram uma nova definição para a palavra “amigo”. Um clique pode transformar um desconhecido em “amigo”, mas nenhum algoritmo consegue construir confiança.
Podemos ter milhares de seguidores e ainda assim enfrentar uma noite de solidão.
Podemos receber centenas de curtidas e não encontrar uma única pessoa para conversar de coração aberto.
Porque amizade não é quantidade.
Amizade é profundidade.
Não é quem curte nossa fotografia. É quem respeita nossa história.
Não é quem comenta nossa vitória. É quem nos ajuda a levantar depois da derrota.
Não é quem aparece quando estamos brilhando. É quem não desaparece quando nossas luzes se apagam.
O tempo é o melhor avaliador
Com o passar dos anos, aprendemos uma verdade que nenhum livro consegue ensinar completamente: o tempo revela as pessoas.
Não precisamos perseguir ninguém para descobrir seu valor.
Não precisamos implorar por amizade.
Não precisamos manter ao nosso lado quem constantemente demonstra que não quer estar.
A vida fica mais leve quando aprendemos a valorizar quem permanece espontaneamente e a deixar partir quem escolheu outro caminho.
Isso não é frieza.
É maturidade.
É compreender que algumas portas precisam ser fechadas não por falta de amor, mas por excesso de respeito por nós mesmos.
A verdadeira riqueza
No fim da vida, talvez descubramos que acumulamos muitas coisas que não poderão nos acompanhar.
Dinheiro, títulos, diplomas, propriedades, reconhecimento e poder ficam para trás.
Mas as lembranças permanecem.
O abraço permanece.
A palavra de conforto permanece.
A mão estendida permanece.
A amizade verdadeira permanece.
Talvez a grande riqueza de uma existência não seja quantas pessoas conhecemos, mas quantas vidas tocamos com sinceridade.
Por isso, antes de perguntar quem estará ao nosso lado quando precisarmos, devemos fazer uma pergunta ainda mais profunda:
Quem temos sido na vida daqueles que confiam em nós?
Porque amizade também é responsabilidade.
Não basta procurar bons amigos. Precisamos aprender a ser bons amigos.
Não basta exigir lealdade. Precisamos ser leais.
Não basta querer confiança. Precisamos ser dignos dela.
Uma reflexão para a vida
Sócrates nos convida, através dessa reflexão, a olhar para as relações humanas com mais profundidade.
O dinheiro guardado só revela seu valor quando chega a necessidade. A amizade, igualmente, revela sua força quando a vida nos coloca diante da adversidade.
Mas existe algo ainda maior:
não espere precisar de alguém para descobrir que deveria ter valorizado sua presença.
Valorize hoje.
Agradeça hoje.
Perdoe, quando possível.
Demonstre carinho.
Ligue para aquele amigo que há muito tempo você não procura.
Diga às pessoas importantes que elas são importantes.
Porque a vida é breve demais para deixar sentimentos verdadeiros para depois.
No final da caminhada, não serão os milhares de nomes na agenda que representarão nossa riqueza. Serão aqueles poucos nomes que permaneceram quando todos os outros tinham uma razão para partir.
E talvez essa seja a verdadeira medida de uma vida:
não quantas pessoas estiveram ao nosso lado quando brilhávamos, mas quantas permaneceram quando atravessávamos a escuridão.
Quem tem um amigo verdadeiro não possui apenas companhia. Possui um pedaço de eternidade.
Rômulo Sena
Escritor Brasileiro • Autor de Vários Livros • Jornalista • Professor • Poeta • Apresentador de TV • Palestrante Fundador da Escola Arte e Cultura Amazonas – Brasil
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